RELATÓRIO FINAL DA COMISSÃO DA VERDADE CHICO BRAVO
“Num tempo,Página infeliz da nossa história,Passagem desbotada da memóriaDe nossas novas gerações...”(Chico Buarque de Hollanda)
INTRODUÇÃO
Com a criação da Comissão Nacional da Verdade e da Comissão Estadual da Verdade, a partir de fins de 2013, em Nova Friburgo, diversas pessoas representativas de instituições da sociedade civil deram início à formação de um coletivo de discussão tendo em vista à criação de uma Comissão Municipal da Verdade. Após diversas reuniões, o Coletivo foi procurado pelo Vereador Claudio Damião, que se comprometeu em levar à Câmara de Vereadores de Nova Friburgo a ideia da criação da Comissão da Verdade em nossa cidade, sendo posteriormente aprovada por unanimidade pelo conjunto dos Vereadores, por meio da Lei Municipal nº 4.313, de 1º de abril de 2014, que também homenageou o Vereador comunista cassado em abril de 1964, dando-lhe o nome de Chico Bravo (Francisco de Assis Bravo).
Em 24 de junho de 2014, reunida a Câmara de Vereadores de Nova Friburgo, os membros da Comissão da Verdade friburguense tomaram posse. A Comissão teve a seguinte composição: dois vereadores representantes da Câmara Municipal de Nova Friburgo: Claudio Damião Santos Pereira e José Sebastião Rabelo (Zezinho do Caminhão); um advogado de Nova Friburgo indicado pela Ordem dos Advogados do Brasil, Seção Nova Friburgo: Dr. Carlos André Rodrigues Pedrazzi; um técnico indicado pela Comissão da Verdade do Estado do Rio de Janeiro: o cientista político Rodrigo Garcia; dois representantes do corpo docente que atuavam em estabelecimentos de ensino superior em Nova Friburgo e Região: professores João Raimundo de Araújo (História da Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia) e André Queiroz Ferreira de Mello (Direito da Universidade Estácio de Sá); dois representantes do corpo discente que atuavam em estabelecimentos de ensino superior em Nova Friburgo e Região: Nathália Bohrer Bellinger da Costa (CEDERJ/Uni-Rio) e Caio Mendes da Silva (Direito da Universidade Estácio de Sá); dois representantes indicados pelos sindicatos de trabalhadores: Ricardo da Gama Rosa Costa (Sinpro de Nova Friburgo e Região) e Paulo de Miranda Sipatti Pires (Sindicato dos Bancários); três representantes indicados pelo Coletivo da Memória, Verdade e Justiça de Nova Friburgo: Maurício Antunes Raposo, Fernando Mota Sousa e Hugo José Moreno Pereira. Durante as reuniões, verificamos a constante presença do professor Sérgio El-Jaick, da professora Vânia Rosângela Machado, da professora Maria Inez Breder e do operário sindicalista Ivaldeck Barreto. Para presidir a Comissão, foi escolhido o nome do Professor João Raimundo de Araújo; Ricardo da Gama Rosa Costa foi indicado para ser Secretário Executivo e André Queiroz Ferreira de Mello, Relator. Durante as reuniões, verificamos a constante presença do professor Sérgio El-Jaick, da professora Vânia Rosângela Machado, da professora Maria Inez Breder e do operário sindicalista Ivaldeck Barreto.
Com o objetivo de reconstituir a memória coletiva de Nova Friburgo no período dos chamados “anos de chumbo” – 1964-1985 – a Comissão da Verdade Chico Bravo passou a reunir-se quinzenalmente, a princípio no espaço da Câmara de Vereadores Municipal e, posteriormente, em diversos outros locais do município. Os dados levantados corresponderam aos mandatos dos prefeitos municipais: Heródoto Bento de Mello (10/04/64-30/01/67); Amâncio Mário de Azevedo (31/01/67-31/01/71); Feliciano Costa (31/01/71-31/01-73); Amâncio Mário de Azevedo (31/01/73-01/02/77); Alencar Pires Barroso (01/02/77-31/01/83); Heródoto Bento de Mello (31/01/83-1989). Curiosamente, Heródoto Bento de Mello foi quem deu início, como prefeito, ao período da Ditadura em Nova Friburgo, após o afastamento forçado do Prefeito eleito Vanor Tassara Moreira e, num outro mandato, esteve à frente do mesmo Executivo Municipal no período final da Ditadura (1985).
Ao longo de nossos estudos, foi possível concluir que o Engenheiro Heródoto Bento de Mello teve papel de destaque durante o período ditatorial no município. Com ele, mais claramente se estabeleceu a aliança entre o Executivo Municipal, os empresários locais e o Sanatório Naval, instituição militar que assumiu a principal função de vigilância e perseguição aos opositores da ditadura, pairando sempre como uma sombra opressiva e uma ameaça permanente a todos aqueles que ousassem desenvolver qualquer atividade contrária ao que pregava o regime autocrático. E também com Heródoto ficou evidenciado um modelo político autoritário em nosso município.
Nova Friburgo, nos “anos de chumbo”, não se constituiu uma localidade de paz, harmonia e tranquilidade. Muito ao contrário. O medo e as pressões estiveram presentes nos corações e mentes de parte da população, embora não tenhamos constatado a existência aqui de locais de torturas, violências e assassinatos como acontecido em Petrópolis com a “Casa da Morte” e como em Campos dos Goytacazes, com a utilização dos fornos de uma usina de açúcar para dar sumiço aos corpos dos “desaparecidos” na “Casa da Morte”.
Em defesa de perseguidos políticos e de alguns membros do clero católico, constatamos a importância da atuação do Bispo diocesano Dom Clemente Isnard, incansável na proteção de pessoas perseguidas e até mesmo facilitando a saída de alguns para o exterior. Consideramos Dom Clemente figura das mais notáveis na resistência à ditadura que mereceria maior reconhecimento da parte da sociedade friburguense.
A atuação da CVCB pautou por fazer constantes debates e obter depoimentos de antigos sindicalistas, professores, artistas, trabalhadores em geral, constantes deste relatório. É importante lembrar que, durante os testemunhos, ocorreram momentos de grande emoção. Por exemplo, o depoimento da professora Maria Inez Breder, relatando momentos de tensão por ocasião do golpe militar no Chile em setembro de 1973, onde estava exilada juntamente com a família,
Acreditamos que a leitura deste relatório venha a contribuir para um melhor conhecimento de momentos difíceis vivenciados pela população de Nova Friburgo. Tais acontecimentos não merecem ser esquecidos por todos aqueles que vivenciaram diretamente tal situação, nem pelas “nossas novas gerações”. Essas “paginas infelizes de nossa história” têm que ser sempre lembradas para que assim possamos evitar sua repetição. Ditadura nunca mais!
CAPÍTULO I – COMISSÃO DA VERDADE E JUSTIÇA DE TRANSIÇÃO
I.1. Formação histórica da Comissão da verdade, memória e justiça – histórico de Nova Friburgo
A criação da Comissão da Verdade, Memória e Justiça Chico Bravo (CCB) atende a uma demanda histórica, no sentido de fornecer às futuras gerações reflexão sobre um período marcado pela negação da verdade. Trata-se de revolver a fundo os fatos que marcaram a vida política e cultural de Nova Friburgo, nos idos dos anos sessenta e setenta do século XX. Essa delimitação temporal do campo de pesquisa atende: em primeiro plano, no aspecto formal, à exigência contida na Lei Municipal nº 4.313, de 1º de abril de 2014, norma responsável pela criação da CCB; em segundo plano, no aspecto material, cuida de buscar motivação de sua criação pelo resgate do patrimônio jurídico, até então colocado à margem da narrativa oficial sobre o período entre 1964 e 1988, onde uma ditadura civil e militar fez sangrar a democracia no país, solapando direitos fundamentais do brasileiro, no geral, e, no particular, do cidadão friburguense. O artigo segundo da lei instituidora da Comissão reforça os argumentos aqui colacionados (NOVA FRIBURGO, 2014):
A Comissão Municipal da Verdade de Nova Friburgo terá como foco prioritário a investigação sobre as prisões arbitrárias, a cassação de mandatos eletivos, a demissão e interferência na vida profissional de trabalhadores, o indiciamento em inquéritos policiais e militares, as práticas de tortura física e psicológica, a perseguição e demais crimes cometidos por agentes da ditadura contra quaisquer indivíduos motivados por causas políticas, ideológicas e por reivindicações trabalhistas no período subsequente ao Golpe de 64, atos praticados em Nova Friburgo (...).
Ao colocar luz sobre a realidade obscurecida pelas forças da repressão que grassaram pelo solo serrano, a CCB reconcilia o friburguense com a verdade que lhe foi negada dando vida ao conceito de direito ao conhecimento. Tal conceito envolve uma gama enorme de instrumentos jurídicos destinados a sua efetivação, enquanto garantia fundamental da pessoa humana encartada no artigo quinto da Constituição Federal, especificamente quando consagra a liberdade de consciência e proíbe privação de direitos por motivo de convicção política, respectivamente, em seus incisos VI e VIII (BRASIL, 1988).
Por certo que a tutela de tais direitos somente será efetivada acaso o acesso a informação seja seu pressuposto indispensável, posto que nenhuma pessoa exerce plenamente a liberdade de consciência desprovida de dados da realidade que a façam, diante deles, desenvolver juízo crítico. Na mesma linha de raciocínio a ninguém se reconhece autônima de posicionamento político, sem que lhe seja permitido o acesso a elementos históricos, sociológicos e políticos que lhes ofereçam sentido a formação de suas convicções.
Também e, sobretudo, enredado no sistema global de garantias dos direitos fundamentais do ser humano, o direito de um sujeito conhecer a história de seu próprio povo define as bases para formação de sua personalidade jurídica que, em outras palavras, significa dizer a plena capacidade de assumir obrigações e exercer direitos. Alguém que não conheça seu passado não pode se reconhecer no presente e, portanto, não tem condições de pensar seu futuro. Destarte vale trazer a lume pensamento de Caio Prado Júnior a esse respeito (PRADO JÚNIOR, 1989):
O Brasil (...), apesar de tudo de novo e propriamente contemporâneo que apresenta – inclusive estas suas formas institucionais modernas, mas ainda tão rudimentares quando vistas em profundidade – ainda se acha intimamente entrelaçado com seu passado. E não pode por isso ser entendido senão na perspectiva e à luz desse passado.
Diante desse contexto, a criação da CCB representou o desdobramento de um conjunto de ações pretéritas, mantendo-se, pois, fiel aos designíos de sua criação. Precedeu sua criação o Coletivo pela Verdade, Memória e Justiça (CVMJ), formado por integrantes de diversos setores da sociedade friburguense. Essa formação plural do CVMJ germinou na CCB, tanto que sua composição replicou a fórmula da pluralidade, haja vista a participação ainda mais ampla de atores advindos de instituições acadêmicas, sindicatos, Câmara Municipal, além de representantes do próprio CVMJ. Sendo assim, cumpre a este relatório regressar ao tempo em que as condições objetivas foram dadas em nível nacional para o surgimento dessa e de diversas outras comissões da verdade, memória e justiça.
A criação de uma Comissão da Verdade de caráter nacional foi, sobejamente, o marco estratégico na promoção de uma cruzada em favor do esclarecimento a respeito das feridas deixadas pelo regime de exceção entre aqueles seus opositores. Numa medida cronológica mais ampla do que a trabalhada pela CCB, a Comissão Nacional pela Verdade, Memória e Justiça (CNVMJ), instituída pela lei nº 12. 528 de 2011, debruçou-se na mesa de estudos compreendidos entre o dia 18 de setembro de 1946 (data em que foi promulgada a constituição federal do pós-guerra), até o dia 05 de outubro de 1988 (ocasião em que nasceu a chamada constituição cidadã, que vigora até os dias atuais), conforme fixado pelo artigo oitavo do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) da Constituição Federal.
Passados mais de vinte anos de autoritarismo, contados de 1964 a 1985, quando então sucede no Brasil acordo político que destrona o governo dos militares, ante decisão apertada do Colégio Eleitoral que reconhece a vitória de um candidato civil (Gaspari, 2014), coloca-se em marcha o processo de uma justiça de transição. Malograda a tentativa de perpetuação no poder político central do país, por parte de alguns setores das Forças Armadas (idem), exsurge necessidade de colocar as claras as atrocidades cometidas pelo ancien regime, como medida de acertar as contas daqueles que perpetraram graves violações aos direitos humanos, uma vez que tais crimes são imprescritíveis, segundo Declaração Universal dos Direitos Humanos (UN, 19945) subscrita por mais de cento e oitenta países, entre os quais o Brasil.
I.2. Justiça de transição – conceituação e panorama global
A título de ilustração, o fim da Guerra Fria encontrou na queda do muro de Berlim sua metáfora mais apropriada, contudo, a consolidação desse processo ganhou notoriedade depois que foram apuradas as denúncias envolvendo uma série de crimes contra a humanidade, sendo os responsáveis por esses crimes punidos na forma da lei.
Mais do que o cumprimento de uma sentença condenatória, a apuração das circunstâncias dos crimes praticados a época em que a Alemanha foi dividida entre as duas superpotências (EUA e URSS) trouxe um divisor de águas ao mundo quando cunhou em diversas cartas de direitos a importância do direito que assiste a cada pessoa conhecer sobre a história de seu povo e, além disso, registrar na memória um período que, espera-se, jamais seja revivido (SIKKINI, 2011). Daí porque se torna assente entre os países de maior tradição democrática o princípio segundo o qual a ninguém deve ser privado o direito ao conhecimento e, por conseguinte, a memória. Os somatórios desses dois valores resultam numa medida de justiça que toda autoridade deve a quem ela por lei é obrigada a servir, não sendo ninguém mais do que o cidadão.
Em perfeita sintonia com o conceito entabulado pelo Conselho de Segurança da ONU, intitulado The rule of law and transitional justice in conflict and post-conflict societies, (UN, 2004) tem-se por justiça de transição uma gama de mecanismos que, reunidos num plano estratégico, depara-se com o legado de violência em massa do passado buscando enfrenta-lo com ações que “visem atribuir responsabilidades, para exigir a efetividade do direito à memória e à verdade, com vistas a fortalecer as instituições com valores democráticos e garantir a não repetição das atrocidades” (idem).
Não se pode olvidar da influência que esses fatos históricos tiveram sobre o Brasil. Mas também seria por demais subestimar a capacidade de organização e mobilização de setores da sociedade brasileira, acaso todo o crédito para criação das comissões da verdade fosse atribuído a essas injunções do cenário político internacional.
I.3. Histórico da formação da Justiça de Transição no Brasil a partir da luta pela Anistia, Ampla, Geral e Irrestrita culminado com a formação da Comissão Nacional pela Verdade, Memória e Justiça
Retornando ao tema relativo à formação da Comissão Nacional da Verdade, Memória e Justiça, e regressando ainda mais no tempo, observa-se no ano de 1975 o nascimento, sob os auspícios do crescimento da repressão gracejados pelo Ato Institucional nº 5, do Movimento Feminino pela Anistia encabeçado por Therezinha Zerbini.
Os anos se passaram, a resistência ao golpe militar cresceu e quatro anos depois de iniciada a luta pela anistia, o governo Geisel cedeu a pressão pular, buscando, ao mesmo tempo, no afã de salvar os anéis ante a eminência de perder os dedos, ocultar suas mãos sujas de sangue, dada sua participação direta na tortura e assassinato de opositores políticos, em práticas que eram oficialmente ensinadas nos manuais distribuídos aos agentes públicos e a grupos paramilitares. A lei 6.683, editada em 28 de agosto de 1979, logo passou a ser chamada de Lei da Anistia, numa tentativa de recriar na raiz etimológica da palavra anistia o significado original de esquecimento.
Esquecer, assim como quem passa borracha sobre escrito do qual tenha se arrependido de escrever. Como se fosse possível rasgar as páginas de um capítulo da história do Brasil negando, desse modo, para 82 milhões de brasileiros (IBGE, 201), nascidos nos anos subsequentes a redemocratização do país, o direito de saberem sobre o que de fato aconteceu. Uma incisão cirúrgica no cérebro de cada um cidadão nato, ou naturalizado, ao ponto de sonhar um dia transformar a natureza humana, quando, pretendendo amputar a capacidade neural de alguém que, em sentido abstrato, retrocede ao tempo de seus antepassados para de lá trazer algumas lições para sua vida presente, ver surgir uma espécie de homem-zumbi somente guiado pelos sinais do aqui e agora, desprovido de qualquer memória sócio-política.
No curso dos acontecimentos, seguindo uma trajetória ascendente no que diz respeito ao ressurgimento e fortalecimento das instituições democráticas, ainda que tardiamente, o Brasil deu mais um passo em direção a transição política. Não um passo largo, a bem da verdade, se comparado ao avanço de tantos outros países, sobretudo da América Latina, para onde muitos acusados foram levados as barras dos tribunais e lá condenados pelos crimes praticados sob o manto do Estado autoritário, a exemplo do que aconteceu no Chile e na Argentina. A Lei nº 9.140, de 04 de dezembro de 1995, manjedoura da Comissão Nacional de Mortos e Desaparecidos, sem pretender mover processos criminais orientados a identificar e condenar agentes da ditadura, trouxe algum alento a familiares de desaparecidos políticos, uma vez que reconheceu a responsabilidade direta do Estado sobre aqueles cidadãos executados em penas capitais, sem que a eles fossem dados qualquer meio de defesa, estando eles ainda sob custódia de órgãos públicos, em total desalinho ao apregoado pela ordem jurídica vigente. A barbárie não encontrou limites sequer na esfera das relações religiosas de um povo vocacionado ao exercício da fé cristã. Ritos e liturgias das principais instituições religiosas do país foram sumariamente desprezados, eis que foi negado aos amigos e familiares das vítimas da ditadura o elementar direito de velar pelos seus corpos e prantear a perda desses entes queridos. De acordo com o texto legal, para todos os efeitos, as pessoas que tenham participado, ou tenham sido acusadas de participação, em atividades políticas, no período de 2 de setembro de 1961 a 5 de outubro de 1988, e que, por este motivo, tenham sido detidas por agentes públicos, achando-se, desde então, desaparecidas, sem que delas haja notícias, passam a ser reconhecidas como mortas, no que abre chancela para que, ao menos formalmente, sejam enterradas sem, no entanto, jamais serem esquecidas.
O trabalho da Comissão Nacional de Mortos e Desaparecidos ganhou folego com a determinação do então presidente Luís Inácio Lula da Silva em recolher ao Arquivo Nacional mais de 20 milhões de páginas sobre os anos de chumbo, numa iniciativa que desencadeou nos demais entes da federação a sistematização de outros tantos documentos relativos ao mesmo período histórico, envolvendo os mais diversos órgãos da polícia política “bem como de outros setores que estiveram a eles vinculados, como os institutos médicos legais e os órgãos de criminalística (CNV, 2016).”
Por ora, somando esforços em benefício da verdade, da memória e da justiça, a lei nº 12.527/2011, ao preconizar os procedimentos obrigatórios de Acesso à Informação (LAI), coloca pedra angular na luta em defesa de um Estado destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, tais como a liberdade de consciência e a capacidade de exprimir convicções políticas, fazendo desses e de outros valores os nutrientes necessários para o crescimento de uma “sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias (Brasil, 1988).”
CAPÍTULO II – HISTÓRIA LOCAL
II.1. Quem foi Chico Bravo
FRANCISCO DE ASSIS BRAVO, CHICO BRAVO, ou ainda, CHIQUINHO PIMPÃO, como era mais conhecido em função de apelido ganho na infância por causa de suas peraltices, nasceu em 1910 na cidade de Nova Friburgo e, com pouco mais de vinte anos já participava ativamente das lutas operárias no município.
O movimento operário friburguense viveu momento de ascensão nos primeiros anos da década de 1930, quando foram criados os primeiros sindicatos, após decreto de Getúlio Vargas regulamentando a sindicalização das classes patronais e operárias, em 1931. Neste ano, com a presença de um alto funcionário do Ministério do Trabalho, foram criadas, em primeira instância, a Aliança dos Trabalhadores das Fábricas de Tecidos de Nova Friburgo e a União Friburguense dos Trabalhadores em Construção Civil. Os operários das indústrias têxteis formalizaram, no dia 1º de novembro daquele ano, a fundação do sindicato, batizado então de União dos Trabalhadores das Fábricas de Tecidos de Nova Friburgo. Um ano mais tarde seria criada a União dos Empregados em Padarias em Nova Friburgo, na sede da Sociedade Humanitária.
O Partido Comunista vinha tentando se organizar na cidade desde 1925, através dos padeiros italianos Elpídio e Maradey, ligados a Otávio Brandão e Minervino de Oliveira, no Rio. Os dois reuniram trabalhadores de fábricas e de outros setores na sede da Banda de Música Campesina, onde discorreram sobre a vida na União Soviética e sobre os ideais do Partido. No entanto, somente quatro anos mais tarde, uma segunda reunião no bairro da Vilage, com a presença de Astrojildo Pereira, concretizou a criação do PC no município. Com a fundação dos primeiros sindicatos de trabalhadores na cidade, José Pereira da Costa Filho (Costinha) se destacaria à frente do Sindicato dos Têxteis, enquanto Francisco Bravo, pedreiro, atuaria junto aos trabalhadores da Construção Civil, vindo a exercer, mais tarde, durante vários mandatos, a presidência do Sindicato.
Paralelamente à estrutura sindical oficial, o Partido Comunista organizou a Fração Sindical, para orientar a atuação dos seus militantes dentro dos sindicatos. Os comunistas, pressionando as diretorias dos sindicatos a uma ação mais firme contra os patrões, que burlavam os direitos recentemente conquistados, como as leis de férias, lançaram uma Carta de Reivindicações, com a intenção de mobilizar os trabalhadores a partir de propostas tais como “trabalho igual, salário igual”, visando a igualdade de salários para homens, mulheres e crianças. Propunham reajuste salarial de 25% para os adultos homens e 50% para crianças e mulheres, além de licença-maternidade de quatro meses (dois meses antes do parto e dois meses depois) e creches nos locais de trabalho.
A Carta de Reivindicações serviu para provocar discussões entre os trabalhadores e iniciar uma mobilização. Aos quatro dias de janeiro de 1933, estourou uma greve que canalizou as atenções de toda a cidade, preocupando, inclusive, as autoridades estaduais. O movimento, iniciado na Fábrica de Rendas Arp, propagou-se de imediato para as outras indústrias têxteis: Filó, Ypu, Rio Branco e Beauclair. Os operários dirigiram-se à Praça Paissandu, onde realizaram uma manifestação e, depois de ouvirem vários oradores, partiram em passeata pelo centro da cidade. A movimentação meteu medo nos grupos políticos dominantes, que convocaram o Chefe de Polícia do Estado. A repressão policial redundou na morte de um jovem operário da Fábrica Arp, Licínio Teixeira, que participava das manifestações junto com outros catorze companheiros, todos feridos pelos disparos dos soldados. Chico Bravo conta que ele e outros companheiros encarregaram-se de pintar uma faixa convocando a população para um ato de protesto contra a repressão policial e a morte de Licínio. Escreveram na faixa, com tinta vermelha: “O SANGUE DE LICÍNIO CLAMA POR VINGANÇA”, e muitos acreditaram que os dizeres haviam sido pintados com o próprio sangue de Licínio.
Em 1935, a tentativa frustrada de revolta armada conduzida pelo PCB acabou por servir a Vargas como o pretexto desejado para a decretação do estado de sítio, artifício autoritário que seria renovado, sucessivamente, até 1937. Em Friburgo, vários daqueles que haviam integrado a linha de frente da Aliança Nacional Libertadora na cidade foram presos e enviados a Niterói. Eram eles: Jorge El-Jaick, José Navega, Joaquim Naegle, Ricardo Leite, José Costa, Jacob Goltemberg, Manoel Bezerra dos Santos, Themistocles de Freitas Brito, etc. Francisco Bravo, um dos mais ativos militantes comunistas, conseguiu escapar da polícia, refugiando-se no distrito de Amparo.
Com o fim do Estado Novo no imediato pós-guerra, o movimento operário voltou a viver um momento de ascensão, e trabalhadores das principais fábricas têxteis voltaram a se manifestar, após mais de uma década de silêncio. Nos anos de 1945, 1946, 1947 e 1948, foram constantes as greves e lutas travadas contra os patrões por melhores salários e condições mais favoráveis de trabalho. Chico Bravo participou ativamente de todas essas lutas, assim como da campanha “O Petróleo é Nosso”, o movimento nacionalista de maior participação popular na história do Brasil. Em março de 1960, quando o Governador Roberto da Silveira esteve visitando a cidade, uma comissão de trabalhadores capitaneada por Francisco Bravo e José Costa (então presidente da Associação de Aposentados) foi a ele denunciar as condições de insalubridade a que estavam submetidos os operários nas seções de tinturaria das fábricas têxteis.
O crescimento dos grupos nacionalistas e de esquerda, em Nova Friburgo, tornou-se visível com o resultado das eleições de 1962. Foi eleito prefeito o médico Vanor Tassara Moreira, que, mesmo lançado pela UDN, nutria mais simpatias pelo PTB. Já o núcleo udenista “radical” seguia a liderança do Engenheiro Heródoto Bento de Mello, eleito vice. Na Câmara Municipal, a novidade era a eleição do líder operário Francisco Bravo, único vitorioso pelo PST, o partido de Tenório Cavalcanti, que abrira suas portas para os comunistas. Chico Bravo, então com 52 anos, conquistou a duras penas a sua eleição para vereador, pois o clero católico conservador batia de porta em porta pedindo às pessoas que não votassem nos candidatos comunistas. As campanhas do industrial Álvaro de Almeida e de Amâncio Azevedo, candidatos a prefeito e a deputado estadual pelo PSD, enfatizaram o caráter daquelas eleições como o da luta “da ordem contra a subversão; da democracia contra as ditaduras ideológicas”, conforme publicado no jornal A Voz da Serra, em outubro de 1962. Como vereador, atuou com destaque na defesa dos interesses dos trabalhadores, até a sua cassação, em abril de 1964.
Chico Bravo foi o único vereador cassado na história da Câmara Municipal de Nova Friburgo, e o foi por motivos ideológicos. Além de todo o seu histórico de lutas ao lado dos trabalhadores em Nova Friburgo e de sua aberta vinculação ao Partido Comunista, com certeza ajudou a pesar na sua cassação o fato de ter sido, junto com outros dirigentes sindicais e militantes esquerdistas, organizador da caravana de trabalhadores que partiu de Nova Friburgo com destino à Central do Brasil, para participar do comício pelas reformas, em 13 de março de 1964.
Os comunistas friburguenses somente voltaram a atuar sob a luz da legalidade em 1985, quando, formada uma Comissão Executiva Municipal, Francisco Bravo foi conduzido à Presidência do PCB de Nova Friburgo, como um reconhecimento dos jovens camaradas que reestruturaram o partido local à sua bela trajetória e à sua participação nos eventos políticos de então, como as lutas pelo fim da ditadura militar e pelas liberdades democráticas, que convergiram no grande movimento popular pelas eleições diretas para Presidente da República. Naquele mesmo ano era empossado na Presidência de Honra da Associação dos Aposentados da cidade.
Em 16 de julho de 1998, faleceu Francisco Bravo, com 88 anos de uma vida exemplar, cuja marca maior foi a preocupação com os desvalidos de nossa sociedade. Um dos principais legados de Chico Bravo foi seu espírito de solidariedade: já nos idos da década de 1930, Chico ajudava aqueles que vinham do interior à busca de emprego na zona urbana, arranjando agasalhos e reunindo algum dinheiro para comprar comida e alimentá-los. Como ele dizia: “Aqui em Nova Friburgo era uma porta da esperança porque eles vinham batidos pela fome … então a gente tinha que dar uma identidade a eles … era um trabalho árduo, difícil”. Também nos fica a imagem do homem empertigado, ereto, durante suas caminhadas pelas ruas de Friburgo, a demonstrar a firmeza de quem nunca vergou diante das adversidades provocadas pelas inúmeras perseguições políticas e que tampouco deixou de acreditar nos seus ideais.
II.2. O Golpe de 1964 em Nova Friburgo
A estratégia golpista local, em 1964, contou com a participação ativa da UDN (à frente o Engenheiro Heródoto Bento de Mello, eleito vice-prefeito em 1962), de empresários e comerciantes, dos militares vinculados ao Sanatório Naval e com a postura no mínimo complacente dos demais partidos e da Câmara Municipal. A deposição do Prefeito Vanor Tassara Moreira foi facilitada pelo isolamento político em que foi colocado, em virtude de uma série de atitudes consideradas polêmicas e contraditórias, tomadas à frente do Executivo. Foram condenadas pela classe dominante local diversas medidas administrativas pelas quais se acusava o mandatário de incompetência e inépcia, assim como a pequena importância dada aos festejos do 16 de maio, quando, oficialmente, deveriam ser comemorados os 145 anos do município.
Mas, centralmente, Vanor foi condenado pelos seus posicionamentos contrários aos interesses de empresas como a Friburgo Auto Ônibus Ltda. (FAOL), monopólio do transporte público, cuja solicitação de reajuste do preço das passagens fora recusada pelo Prefeito. Vanor chegou a colocar em circulação caminhões com carrocerias abertas para fazer o transporte dos trabalhadores, assim como ameaçou com a possibilidade de encampação da empresa pelo município. Além disso, desde a campanha eleitoral, já havia entrado em conflito com seus correligionários da UDN, pois sempre flertou com o PTB e com as lideranças sindicais e de esquerda, tendo inclusive mandado publicar nota oficial na imprensa saudando os trabalhadores friburguenses pela passagem do 1º de maio, na qual exortava, em discurso de teor quase esquerdista, a “lembrança daqueles companheiros que, no passado e em todos os países sacrificaram-se em benefício das classes trabalhadoras para melhor aprimoramento da justiça social” .
O cerco foi se fechando em torno de Vanor, que passou a ser apontado pelos meios de comunicação locais como a integrar a “causa comunista”. Com o golpe militar perpetrado na noite do dia 31 de março destituindo o Presidente João Goulart, o Prefeito foi chamado a depor no Sanatório Naval, a fim de prestar esclarecimentos a respeito de pretensas atitudes subversivas por ele consumadas no dia 1º de abril. Segundo o jornal udenista A Paz, Vanor teria tentado impedir que operários entrassem para trabalhar nas fábricas, acusando-o de fazer parte do esquema comunista em Friburgo e de ser um teleguiado a serviço dos sindicalistas. O Jornal A Voz da Serra (fundado pelo PSD) fez igual denúncia, afirmando que Vanor havia comandado as ações visando interromper o trabalho nas indústrias, com metralhadora em punho, após o que teria invadido a Rádio Sociedade de Friburgo para apossar-se da estação transmissora e, ao microfone, condenar o golpe militar. Longos elogios foram tecidos pelo periódico à Marinha de Guerra, representada pela guarnição do Sanatório Naval na cidade, chamada então de “Muralha da Democracia”, porque, “cônscia da missão que lhes estava outorgada”, teria garantido a “defesa dos friburguenses”.
De acordo com relatos colhidos junto a ativistas sindicais da época, dentre os quais o operário têxtil Antônio Cordeiro, corroborados pelos testemunhos de Ivaldeck Barreto e Maria Ignez Breder, houve de fato uma paralisação parcial das fábricas em Nova Friburgo no dia 1º de abril, como forma de opor resistência ao golpe militar, organizada pelos sindicalistas que empunharam a bandeira da “Legalidade” propagada por Leonel Brizola e pelos setores democráticos. Vanor teve participação no episódio, cedendo um jipe da prefeitura para a locomoção dos ativistas, além de estar presente nas portas de algumas fábricas (como a Fábrica de Filó, no bairro da Lagoinha) e na ida à Rádio, mas a história das metralhadoras não teria passado de pura lenda.
Vanor foi então acusado, pelo Diretor do Sanatório Naval, de “incitamento à desordem, fechamento das fábricas à força e hasteamento do pavilhão nacional a meio pau”, conforme nota dos militares publicada na imprensa, acompanhada das explicações do Prefeito a eles concedidas no dia 02 de abril de 1964, por meio de carta, na qual alegava ter se preocupado com a manutenção da ordem no município, motivo pelo qual teria se dirigido pessoalmente às portas das fábricas e à rádio local, buscando tranquilizar o povo friburguense enquanto esperava pela solução dos graves problemas nacionais. Por fim, reconhecia ter mandado hastear a bandeira brasileira a meio pau, “em caráter sentimental” pelo sangue que poderia correr de irmãos brasileiros. Mas de nada serviriam suas explicações: pressionado, Vanor renunciava no dia 10 de abril, encaminhando ao Presidente da Câmara Municipal ofício no qual era obrigado a reconhecer que as forças armadas tinham por dever arcar com os destinos da Nação, naquela hora de crise.
Também fez parte do IPM (Inquérito Policial Militar) instaurado contra ele a acusação de estar ligado aos ferroviários, categoria na qual era notória a força dos comunistas. Segundo o depoimento de Vanor, os militares mostraram-lhe fotos em que aparecia numa feijoada com ferroviários na antiga Estação Leopoldina, além de o interrogarem sobre o caso do “Trem da Vitória”, ocorrido quando o Congresso havia aprovado lei do deputado comunista Themístocles Batista, o “Batistinha”, beneficiando a categoria, ao mesmo tempo em que o Presidente João Goulart determinara a não extinção do ramal de Nova Friburgo. Os ferroviários, para comemorar, organizaram um comboio especial chamado Trem da Vitória, que entrara em Friburgo todo enfeitado de bandeiras e badalando os sinos sem parar, estando Vanor em um dos vagões, acompanhado de Batistinha. O golpe de 1964 acabou por desativar este, como diversos outros ramais ferroviários do Estado e do país, atingindo em cheio uma categoria de trabalhadores das mais combativas.
A imprensa friburguense, francamente favorável ao golpe, admitia que o Prefeito se vira na encruzilhada de “renunciar ou ser impedido”, mas dava graças ao fato de haver “um vice-prefeito à altura”, a quem seriam entregues os destinos do município. Os representantes do empresariado local de igual forma já haviam demonstrado abertamente sua satisfação com a definição da crise política nacional: no dia 1º de abril foi lido, na Rádio Sociedade de Friburgo, um manifesto assinado pelo engenheiro Ariosto Bento de Mello, irmão de Heródoto, rejubilando-se com a ação dos militares e concitando os operários a voltar ao trabalho, comprovando, com tal apelo, ter havido paralisação das atividades nas fábricas em oposição ao golpe militar.
Este pronunciamento representava a confirmação tácita da articulação golpista promovida por setores das classes dominantes locais. A Voz da Serra, ao enumerar todas as providências tomadas pelo Sanatório Naval para enfrentar os “agitadores” e os piquetes de grevistas na cidade, apontou a ajuda que a guarnição recebera de um “Comitê Democrático Civil Revolucionário”. Vanor acusaria, anos mais tarde, a perseguição contra ele dirigida pelos grandes grupos econômicos. Quanto ao episódio ocorrido na porta da fábrica, teria sido Richard Ihns, gerente da Fábrica de Rendas, quem dissera ter ele empunhado uma metralhadora para impedir a entrada dos operários. Ao grupo Arp interessaria a sua queda porque Vanor defendera a encampação da Companhia de Eletricidade pela Prefeitura. Outra empresa envolvida teria sido a FAOL (Friburgo Auto Ônibus Ltda.), empresa de ônibus que, desde sua fundação em 1950, detinha o monopólio privado da exploração das linhas municipais e que teria ameaçado com locaute à negativa de Vanor em conceder elevação das tarifas.
Sendo assim, estava consumada a ascensão da principal liderança udenista e empresarial friburguense, o Eng° Heródoto Bento de Mello, ao cargo de prefeito, numa concorrida posse no dia 10 de abril, em sessão da Câmara Municipal à qual compareceram os mais destacados representantes das frações da classe dominante que articularam sua chegada ao poder e configurariam a base de sustentação de seu governo. À posse de Heródoto compareceram o representante do Sanatório Naval, Walter Cunha, o presidente da Associação Comercial, Vitório Spinelli e seus mais próximos correligionários: o ex-Prefeito César Guinle, suplente de Deputado Federal; Raphael Jaccoud, presidente da UDN e o jornalista Ângelo Ruiz, presidente da Associação Friburguense de Imprensa, além de 700 pessoas. Também compareceram o Juiz de Direito, Dr. Rivaldo Pereira, e o Bispo Diocesano Dom Clemente Isnard, o qual, mais tarde, seria acusado pelos próceres da ditadura, de colaboração com os “comunistas”.
A imprensa friburguense festejou a queda de Vanor como a representar o providencial retorno à ordem na cidade. Além dos jornais A Paz e A Voz da Serra, O Nova Friburgo, dirigido por uma facção conservadora do PTB, acusava os integrantes do “Centro Cívico Roberto Silveira” (grupo do PTB ligado ao movimento operário e sindical) de abrigar os “comunistas infiltrados” no PTB, os quais teriam pretendido conquistar a direção do partido com a eleição de Celcyo Folly à presidência da Câmara Municipal. Dentro do PTB, duas alas se digladiavam: de um lado, a “conservadora”, à frente da Direção Municipal, presidida pela ex-vereadora Laura Milheiro de Freitas, à qual se ligava o Prof. Messias de Moraes Teixeira, egresso do PSD e o Vereador Ned Torres, um pequeno comerciante; de outro lado, a “de esquerda”, integrada pelos Vereadores Celcyo Folly e Newton D’Ângelo, além do suplente de deputado federal Humberto El-Jaick, ligados ao Deputado Bocayuva Cunha. Desfeita a trama, os trabalhistas conservadores conclamavam a que todos permanecessem vigilantes contra o comunismo, cujo expurgo completo seria o único meio capaz de trazer o País de volta à normalidade institucional.
No caso de Friburgo, o expurgo foi promovido através da cassação do Vereador comunista Francisco de Assis Bravo no dia 14 de abril. A Resolução Legislativa nº 85 da Câmara Municipal, de 10 de abril, dizendo atender “às recomendações formuladas pelos representantes das Classes Armadas em Nova Friburgo, diretamente aos integrantes da Mesa”, afastava temporariamente o Vereador de suas funções, segundo o texto, para apuração de responsabilidades, o que deveria ser feito no prazo de 30 dias. No entanto, quatro dias depois, foi sumariamente aprovada a Resolução nº 86, nos seguintes termos:
Art. 1º - É cassado o mandato do vereador Francisco Assis Bravo, a partir desta data.
Art. 2º - Revogam-se as disposições em contrário.
Nova Friburgo, 14 de abril de 1964
NEY SOARES - Presidente.
A pressão exercida pelos homens do Sanatório Naval, que visitaram a Casa três vezes até conseguirem a cassação, dobrou a Mesa da Câmara, que não ofereceu maior resistência. Assim era interrompida a trajetória do líder operário que, no Legislativo, destacara-se por suas intervenções firmes e ponderadas e por ter aberto diversas frentes de luta, como a fiscalização aos preços dos alimentos e à qualidade do leite, além da tentativa de organizar o Sindicato dos Trabalhadores Rurais, por meio de várias reuniões no bairro de Conselheiro Paulino.
Portanto, o local de repressão mais conhecido em Nova Friburgo é o Sanatório Naval, que funcionou como principal órgão de perseguição aos opositores à ditadura. Por interferência direta de seus diretores à época, houve a pressão para forçar a renúncia do prefeito Vanor Tassara Moreira e cassar o mandato do Vereador Francisco de Assis Bravo, além da atuação na vigilância da "ordem" na cidade, ameaçando sempre agir para sufocar qualquer movimento de oposição. Não temos ainda confirmação se o espaço serviu para abrigar a prática de tortura, apesar de existirem algumas suspeitas a respeito. Além do Sanatório Naval, podemos listar o Tiro de Guerra e a Delegacia de Polícia Civil, que funcionou por muitos anos no Bairro da Vila Amélia, onde hoje ainda existe o prédio, que, no nosso entendimento, deveria ser transformado em local de memória contra a repressão. Ali, em espaço anexo, funcionou também a cadeia municipal, de péssima lembrança para os presos comuns. Na Delegacia, professores como João Raimundo de Araújo (presidente da Comissão da Verdade Chico Bravo) e Carlos Guimarães foram interrogados no final da década de 1970, por sua participação nos sindicatos dos professores e nas greves do período.
A resistência política se deu de várias formas, não havendo um local coletivo específico. Podemos listar: a Igreja Católica, com atuação do Bispo Dom Clemente Isnard, que protegeu perseguidos políticos; padres progressistas, grupos políticos como a JOC (Juventude Operária Católica) e Ação Popular (AP), PCB, MR-8, Convergência Socialista, setores do PTB, depois MDB; grupos de teatro, artistas, a chamada "Geração Bendita", com o cinema; o Parlamento Estudantil, que reunia lideranças das escolas em Nova Friburgo e de onde saiu Mario Prata, assassinado pela ditadura no Rio, quando estudava na UFRJ e atuava no MR-8; alguns sindicalistas, pois, de modo geral, os sindicatos estavam controlados por pelegos e interventores, com exceção para o período final da ditadura (1978-1985), em que direções mais combativas assumiram o Sindicato dos Professores, o Sindicato dos Metalúrgicos e dos Têxteis, e o SEPE estava sendo criado.
Humberto El-Jaick
Figura histórica da maior importância no enfrentamento à ditadura em Nova Friburgo foi Humberto El-Jaick (1922-1990), um dos fundadores e presidente do Partido Socialista Brasileiro e Deputado Federal pelo PTB de 1963 a 1967. Professor e diretor de escola, profissional dos mais atuantes na área da educação, como indicarão testemunhos a seguir, com o golpe de 1964 foi preso e cassado, tendo seus direitos políticos suspensos durante dez anos. Fundou o novo PTB juntamente com Leonel Brizola.
Segundo depoimento de César Lívio (disponível em http://historiadefriburgo.blogspot.com.br/...), na época estudante secundarista do Colégio Municipal Rui Barbosa do turno noturno, no dia do golpe, antes mesmo do início das aulas, um jipe do Exército estacionou em frente ao colégio, dele saindo seis soldados. Os militares entraram no colégio e efetuaram a prisão de Humberto El-Jaick, professor de História e diretor da instituição. Trajando um terno branco e aparentando tranquilidade, Humberto acenou um adeus aos seus alunos, que paralisaram as aulas e até quiseram incendiar o colégio, que funcionava numa antiga fábrica de carretéis e ainda guardava muito material em seu depósito, mas foram contidos pelo Professor Coutinho. César Lívio, que fazia parte do Centro Estudantil Rui Barbosa, chegou a ser perseguido pelos agentes da ditadura durante algum tempo. Rondavam sua casa.
Humberto El-Jaick escreveu, da prisão, a seguinte carta, que foi publicada em A VOZ DA SERRA de 25/26 de abril de 1964, quando a censura ainda não atingira a imprensa: “Polícia Militar. Niterói, 18 de abril de 1964. Minha querida esposa. Lamento o sofrimento que meus inimigos gratuitos estão causando a você e a nossos idolatrados filhos com a injustiça da minha prisão. Se o pensamento revolucionário está consubstanciado nesta frase do atual presidente, sou também um revolucionário, estou no caminho certo, não tenho por que temer nem me penitenciar. Sabe você, sabem nossos filhos e nossos amigos, sabem nossos leais adversários que o meu procedimento político outro não tem sido senão o de lutar democraticamente pela Humanização do homem e pelo desenvolvimento de nossa estremecida Pátria. Sabem todos, e mais que todos Deus é testemunha, que sempre repeli com a mesma veemência todas as formas de extremismo. E se repilo os extremismos é porque sempre coloquei acima de todos os bens humanos o que me parece supremo e inviolável: a LIBERDADE. Não sei ainda porque estou preso. Minha consciência está tranquila. Minha vida, meu passado e meu presente responderão por mim. O povo de Friburgo que me julgue. Quem tiver alguma prova capaz de me condenar na presente conjuntura, que a apresente às autoridades antes do meu julgamento. É um repto de honra que lanço desta prisão ao povo da minha terra. A despeito das calúnias, das infâmias, das intrigas, de tudo, ainda creio na justiça dos homens. O sofrimento purifica os nossos sentimentos. A injustiça nos torna mais justos e chego mesmo a pensar que todos os homens deveriam sofrer injustiças para aprenderem a ser justos. Aos que me acusam levianamente, aos despeitados, aos covardes e aos corruptos que não trepidaram em me afastar de você, dos nossos filhos, dos meus amigos e dos meus alunos, respondo com a minha comiseração pois hão de sentir indignos deles mesmos. Não lhes guardo nenhum ódio nem desejo de vingança (...). Minha querida esposa, ainda não me refis de todo do impacto da injustiça sofrida. Posso, no entanto, concatenar minhas ideias e fazer um retrospecto de todas as minhas atividades políticas. Confesso a você que, se for condenado pelos crimes de que posso ser acusado, prefiro a condenação porque ainda entendo que é melhor morrer com honra do que viver sem dignidade. Minha vida, toda Friburgo é testemunha, tem sido em favor da educação da infância e das juventudes pobres. Por elas, e aí é que imploro seu perdão e dos nossos filhos, tenho sacrificado o bem-estar material de vocês. Nunca lhes pude dar o conforto que merecem, mas jamais um de vocês reclamou o meu procedimento em favor dos mais necessitados. Antes, pelo contrário, Você, Minha Querida Esposa, tem sido o dínamo que me impulsiona nas horas de abatimento e de decepção. Contrária à minha participação na política, mesmo assim, você nunca me deixou sozinho em todos os momentos da minha vida. Beije duas vezes os nossos filhos, por mim e por você. Diga-lhes que, qualquer que seja o meu sacrifício em favor deles, é pouco pelo muito que os adoro. Lamento ainda uma vez o sofrimento que lhes estou causando. Lamento, mas não peço perdão. Perdão é para os que erram. Estou convencido de plena consciência que todas as minhas atitudes têm sido em benefício da Família Brasileira e de nossa inigualável Pátria (...). Estarei mais firme do que nunca para prosseguir na luta pela consolidação de um regime democrático autêntico que possibilite a todos, ricos e pobres, uma vida digna e humana alicerçada nos insuperáveis e imperecíveis ensinamentos de Cristo no Sermão da Montanha. Abraços e beijos. Humberto.”
CAPÍTULO III – A COMISSÃO DA VERDADE CHICO BRAVO
Atuação da Comissão da Verdade em Nova Friburgo
Empossada em 24 de junho de 2014, apesar de encontrar dificuldades em virtude de não ter pessoal exclusivo à disposição para tocar as atividades, pois todos os seus integrantes são voluntários, a Comissão da Verdade Chico Bravo dedicou-se principalmente a realizar a gravação de testemunhos de pessoas que tenham sofrido perseguição política durante a ditadura, iniciados com os depoimentos dos companheiros Ivaldeck Barreto, Maria Ignez Breder e Vania Machado em 28 de agosto de 2014, em sessão pública na Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia, que foi filmada. Os dois primeiros pertenceram à Ação Popular (AP) e, quando estudantes, atuaram na Juventude Católica (JUC), sofreram perseguições em Friburgo e se exilaram no Chile. Ivaldeck foi operário metalúrgico e também atuou na JOC (Juventude Operária Católica). Ignez e Vania formaram-se professoras. No dia 08 de novembro de 2014, na casa de Ivaldeck Barreto e Maria Ignez Breder, foram colhidos e gravados novos depoimentos de Ivaldeck, que abordou centralmente sua militância em tempos de juventude, no movimento operário e sindical, na Igreja Católica e na luta política, descrevendo acontecimentos vividos por ele nos anos anteriores a 1964 (participação no I Congresso de Jovens Trabalhadores), no momento do golpe em Friburgo e na resistência à ditadura.
Em 22 de fevereiro de 2014, o Coletivo da Memória, Verdade e Justiça, formado por organizações associativas, partidárias e sindicais em 03/12/2013 e impulsionador da criação da Comissão da Verdade de Nova Friburgo, já havia promovido o Seminário “Memória, Verdade e Justiça”, na Câmara Municipal de Nova Friburgo, que contou com a participação do célebre advogado defensor das vítimas da ditadura Antônio Modesto da Silveira, Aderson Bussinger (Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ) e de Geraldo Cândido (Comissão Estadual da Verdade-RJ). No dia 29 de abril de 2014, foi realizada Mesa Redonda, na sede do Sindicato dos Têxteis, intitulada “O Movimento Operário, o Golpe de 1964 e a Resistência à Ditadura”, com Ivaldeck Barreto, Ignez Breder, Ricardo Costa e Hugo Moreno.
Na sequência dos meses em 2014 e no primeiro semestre de 2015, a Comissão participou de vários eventos realizados em escolas do município para tratar dos 50 anos do golpe. Estes eventos contaram com a presença de membros da Comissão e do Coletivo da Verdade, Memória e Justiça (professores Ricardo Costa, João Raimundo de Araújo e Sérgio El-Jaick, na maioria das vezes) proferindo palestras e participando de debates com os estudantes. Foram visitadas as seguintes escolas estaduais: Jamil El-Jaick, João Bazet, Instituto de Educação de Nova Friburgo, Canadá, Eduardo Breder, Galdino do Valle Filho, o núcleo central do CEJA/Nova Friburgo e o CEJA/Cordeiro, além das escolas particulares Fribourg, Colégio São José e Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia. Também houve atividade na Escola Municipal Patrícia Jonas, para os professores.
Em 02 de outubro de 2014, a Comissão, juntamente com a OAB de Nova Friburgo, organizou o lançamento do livro “Gracias a la Vida”, com palestra do autor, jornalista e escritor Cid Benjamin, sobre os combates da esquerda brasileira ao regime discricionário. Em 11 de dezembro de 2014, foi realizado evento público na sede da OAB de Nova Friburgo, com palestra do Prof. Ricardo Costa (Secretário da Comissão da Verdade Chico Bravo) sobre o golpe de 1964 em Nova Friburgo e testemunho (gravado) de Sérgio El-Jaick (sociólogo, advogado e professor de História) sobre sua militância política e a de sua família, na qual despontam as figuras dos tios Humberto El-Jaick (professor, advogado e deputado do PTB cassado pelo regime) e Jorge El-Jaick (advogado que pertenceu ao PCB).
Em 30 de abril de 2015, foi colhido o testemunho de João Batista Pinto (ex-operário têxtil e professor de História), em palestra proferida por ele na sede do Sindicato dos Bancários de Nova Friburgo, em que foi abordada a militância sindical, política e a luta contra a ditadura no final da década de 1970 e nos anos 1980 em Friburgo. A atividade contaria ainda com a fala do ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos Vanélio Furtado, que adoeceu e acabou falecendo em 13/07/2015.
Em 08 de julho de 2015, Carlos Pereira Guimarães (professor e ex-deputado estadual do PDT) concedeu entrevista e proferiu palestra intitulada “O PARLAMENTO ESTUDANTIL, O MOVIMENTO CULTURAL E A LUTA DOS PROFESSORES DURANTE A DITADURA”, na sede do Sindicato dos Bancários. Em 14 de setembro foi a vez de seu irmão, Irapuan Guimarães (professor de Português e participante do movimento cultural em Friburgo, na área do teatro) gravar seu testemunho para a Comissão. Em 10 de agosto de 2015, também na sede do Sindicato dos Bancários, a Comissão promoveu debate sobre “MÍDIA, DIREITOS HUMANOS E LUTA PELA MEMÓRIA”, com o professor, escritor e pesquisador Dênis de Moraes.
Também deram testemunhos à Comissão Humberto Damasceno (marinheiro), Marlon Silva de Oliveira (filho de Waldemiro de Oliveira, ferroviário de Cachoeiras e Macacu preso e torturado após o golpe e que recebeu recentemente anistia política post mortem) e Bruno Calderaro (ex-diretor do Sindicato dos Bancários). Dispomos ainda da gravação de antigas entrevistas do ex-prefeito e ex-deputado estadual Heródoto Bento de Mello, dos líderes operários e dirigentes do PCB local Francisco de Assis Bravo (vereador cassado em 1964) e José Pereira da Costa Filho (Costinha), além de outros documentos e pesquisas realizadas por historiadores locais sobre o período em questão e a participação de militantes comunistas, socialistas, sindicalistas, educadores, membros da Igreja Católica, estudantes, artistas, etc, nas lutas contra o regime.
Por meio destes testemunhos, encontros e palestras, foram reunidos dados e informações sobre o papel desempenhado pelo Sanatório Naval e por outros órgãos militares e policiais na constituição do aparato repressivo na cidade. Buscou-se ainda pesquisar a atuação de empresários que apoiaram o golpe e a repressão em Nova Friburgo. Por outro lado, foi possível desenhar um quadro sobre a atuação dos grupos de resistência à ditadura, tais como partidos políticos, organizações revolucionárias, movimentos culturais e religiosos.
CAPÍTULO IV - TESTEMUNHOS
1) Ivaldeck Barreto e Maria Ignez Breder (28/08/2014)
A Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia, em Nova Friburgo, abrigou um evento muito especial na noite de 28 de agosto. Presidida pelo Prof. Dr. João Raimundo de Araújo, a Comissão Municipal da Verdade Chico Bravo promoveu a 1ª Sessão Pública de Testemunhos de Perseguidos Políticos no período da ditadura empresarial-militar (1964-1985) na cidade. Ivaldeck Barreto, Maria Ignez Breder e Vânia Rosangela Machado, militantes da Juventude Católica e da Ação Popular na década de 1960, expuseram detalhes de sua rica experiência de vida e de enfrentamento à ditadura para uma plateia atenta composta, em sua maioria, por jovens estudantes de escolas do ensino médio e de instituições do ensino superior de Nova Friburgo.
Seguindo o roteiro escrito por Ignez, que lia as passagens marcantes de sua vida (e por vezes se emocionava) e era complementada pelos depoimentos dos companheiros, a sessão foi extremamente esclarecedora a respeito do processo de perseguição política a que foram submetidos milhares de brasileiros que não se sujeitaram às condições impostas pelo golpe que derrubou o governo de João Goulart e, por isso, sofreram as agruras do regime ditatorial. Quando ocorreu o golpe, Ivaldeck era um jovem metalúrgico que participava dos movimentos da ala progressista da Igreja Católica, que clamavam por transformações sociais profundas no Brasil, associando-se às lutas pelas reformas de base propostas pelo governo de Jango. Ignez trabalhava na Fábrica Filó e estudava, à noite, no curso normal do Colégio Municipal Rui Barbosa, cujo diretor era Humberto El-Jaick, que foi preso e teve seu mandato de deputado federal (PTB) cassado pela ditadura. No dia do golpe em Nova Friburgo, houve resistência de setores operários e algumas fábricas chegaram a ter suas atividades paralisadas, mas o movimento não conseguiu se manter.
Em 1964, Maria Ignez Breder trabalhava na Fábrica de Filó S/A e cursava, no horário noturno, o primeiro ano do Curso Normal no Colégio Municipal Rui Barbosa, cujo diretor era o professor Humberto El-Jaick, que foi preso logo após o golpe civil militar e levado para o Ginásio Caio Martins, em Niterói. Ficou preso durante dois meses. Foi cassado em 1966. Teve seus direitos políticos suspensos por dez anos. Sua esposa, professora Zeir, também foi destituída do cargo de diretora da Escola Normal. Muitos alunos tiveram seus cadernos de OSPB confiscados pelos agentes repressores. Foi um período de muita angústia e sofrimento para todos. Durante vários anos o professor Humberto El-Jaick foi indicado pelos alunos formandos como paraninfo, porém a indicação era sempre censurada pela nova direção. Indicar o professor Humberto El-Jaick era a forma de denunciar a arbitrariedade, era o protesto possível dos estudantes contra a ditadura. Em 1966, Maria Ignez concluiu o Curso Normal e, em 1968, ingressou no magistério estadual através de concurso público.
Nessa época, Ignez participava do Grupo de Promoção Humana da Igreja Católica e já conhecia Ivaldeck. Ele também era operário, trabalhava na Metalúrgica Virtus, mas já havia trabalhado em outras fábricas e fazia parte do movimento católico denominado JOC (Juventude Operária Católica) onde foi dirigente da Federação no Rio de Janeiro, da Regional Leste e posteriormente da Nacional. A JOC tinha como um dos objetivos manter o cristianismo na formação da sociedade brasileira. Porém, o método utilizado pela JOC, “Ver, Julgar e Agir”, levou muitos jovens ao estudo mais profundo do Evangelho, da Filosofia, da História, da Sociologia e, consequentemente, da realidade social brasileira. Com o golpe civil-militar de 1964 e a suspensão do estado de direito, esses movimentos, de modo geral, tomaram, segundo seus integrantes, uma posição baseada no “cristianismo autêntico”: “Ser cristão é ser homem em radicalidade, o que implica, às vezes, deixar a segurança de sua religião e lançar-se à luta pela humanização dos homens” (O Irmão Marginalizado, Editora Vozes). Enquanto a parte reacionária da Igreja Católica apoiava o golpe militar com o movimento Tradição, Família e Propriedade, a outra parte, que pode ser chamada de progressista, contestava o regime e acolhia os que sofriam perseguição por lutarem por justiça.
Naquele momento, em várias partes do mundo, muitos jovens se mobilizavam, clamando por mudanças, embalados pelo sonho de um mundo melhor e da perspectiva de construir uma sociedade em que os interesses dos trabalhadores fossem tratados com prioridade. Diante da força bruta da ditadura civil militar, os membros da JOC, mais conscientes, também se engajaram nos movimentos clandestinos de resistência à ditadura. Foram criadas várias organizações. Uma delas, a Ação Popular (AP), surgiu através dos militantes da Ação Católica, na qual Ivaldeck se engajou. Porém, independente de fazer parte de qualquer organização, o fato de se reunir para conversar “supostamente” sobre o assunto, para estudar, já era suficiente para ser considerado subversivo, ser sequestrado, preso, torturado e muitas vezes, assassinado.
Em 1968, quando se casaram, Ivaldeck trabalhava como ferramenteiro na Indústria Ferragens Haga S/A, era sindicalista e tinha sido eleito delegado sindical, participara de várias Convenções Sindicais e dos Congressos dos Trabalhadores, tanto em Santa Catarina como na Bahia, junto com outros companheiros, representando a Federação dos Sindicatos Metalúrgico do Estado do Rio de Janeiro. No final do ano de 1971, um padre com o qual mantinham contato, foi preso. Esse padre assistia os fiéis jovens, adultos, principalmente, camponeses e com eles desenvolvia programas sociais. Ele, como tantos outros companheiros, estava inserido na “luta pela humanização dos homens”. Eles Souberam, através do Bispo de Nova Friburgo, que o religioso tinha sido preso e barbaramente torturado e que, sob tortura, havia confirmado alguns nomes do grupo, inclusive o do Ivaldeck. O bispo D. Clemente Isnard, muito preocupado, os aconselhou a sair rapidamente do país. Nossa filha só tinha um ano e cinco meses de idade. Maria Ignez lecionava no Grupo Escolar Tuffy El-Jaick, em Nova Friburgo.
Decidiram, então, sair às pressas do Brasil – com a filha Débora de um ano e sete meses a tiracolo – por causa do recrudescimento da repressão. Partiram para o exílio no Chile, governado pelo socialista Salvador Allende. Com eles foram também os companheiros José Carlos Marins e a esposa, Vânia Rosângela Machado. Partiram no dia três de dezembro, numa sexta-feira, com uma bolsa pequena como se fossem passar apenas o final de semana fora de casa. Por questão de segurança, tomaram o ônibus num ponto fora da rodoviária. Os outros dois companheiros já haviam partido com suas respectivas famílias para a cidade do Rio de Janeiro em horários diferentes.
No Rio, como se fossem turistas, compraram passagem para Foz de Iguaçu. Lá chegaram no dia quatro de dezembro, sábado. Visitaram as cataratas e, ainda como se fossem turistas, solicitaram, no hotel onde estavam hospedados, informações sobre passeios ao Paraguai e se poderiam providenciar passagens de ida e volta a Assunção. No domingo cinco de dezembro, já com as passagens de ida e volta para o Paraguai e com o “Cartão de embarque/desembarque para passageiros por via terrestre da AMERICATUR – tomaram o ônibus em direção à cidade de Assunção. Ficaram hospedados numa pensão e precisavam do Certificado Internacional de vacinação e revacinação contra a varíola para poder entrar na Argentina. Com os certificados e as passagens, viajaram na quarta-feira, dia oito de dezembro, para a Argentina. Dormiram uma noite num Hotel em Santa Fé. Na quinta-feira, dia nove, partiram para Mendoza, onde passaram mais uma noite. Na manhã do dia dez de dezembro, sexta-feira, partiram em direção a Santiago do Chile numa camionete tipo furgão de doze passageiros, com os pneus circundados por correntes, devido à estrada estreita de solo arenoso, com mais de trinta curvas perigosíssimas, alguns trechos com neve e gelo. Em vários momentos, tinham a sensação de que iam ficar pelos precipícios ou nos abismos das travessias das geleiras. Foi uma viagem difícil e dolorosa, principalmente para as crianças. Além da filha Débora, havia dois meninos pequenos, de quatro e cinco anos de idade, filhos de um dos casais.
Foi ficando cada vez mais difícil manter as aparências de turistas. Chegaram a Santiago do Chile no início de uma noite quente de dezembro de 1971. Estavam exaustos, após uma semana viajando, estressados pelo medo e pelas dificuldades. Chegaram empoeirados, doídos pelo desconforto da longa travessia. Após procurarem uma pensão no centro de Santiago, não encontrada, foram para o Hotel Espanha. Dois dias depois conseguiram uma pensão na Calle Ejército, onde ficaram alguns meses. Suas famílias sofreram muito quando souberam que tinham sido obrigados a sair do país.
Com a carta de recomendação do Bispo D. Clemente, foram falar com o Cardeal D. Henrique, que os recebeu cordialmente e forneceu outra carta de recomendação para o trabalho. Ivaldeck conseguiu trabalho na empresa Ritting, uma empresa tomada pelos operários, com recente intervenção do Estado. Ivaldeck trabalhou três meses como ferramenteiro e dois meses como projetista. Com a aposentadoria do chefe geral da seção “ferramentaria, manutenção e projeto”, a CORFO (Corporação de Fomento à Produção, órgão do Governo da Unidade Popular) instituiu um teste entre os profissionais da seção para preencher o cargo. Ivaldeck foi o primeiro colocado e ocupou o cargo até o golpe militar que derrubou Allende, quando foram obrigados a deixar o Chile. Com apenas seis meses no cargo, ele também foi eleito, numa assembleia geral da empresa, membro do Conselho de Administração. A Empresa Ritting era o eixo principal das indústrias do Cordão Macul (Cordón Industrial).
Em maio do mesmo ano, Ignez foi trabalhar nessa mesma empresa. Já estava na Universidade Católica do Chile num curso técnico para educadores, DUOC, destinado aos operários e camponeses. Ela foi trabalhar no setor de educação para melhor atender os filhos dos operários, que tinham direito por lei a creche e jardim de infância. Com a participação dos operários nas decisões da fábrica e com o apoio e orientação do Governo da Unidade Popular, os operários não mais se dedicavam a fazer o patrão lucrar o máximo, e sim, a participar da construção de uma sociedade mais humana, mais justa, produzindo para a coletividade e com direito de usufruir do lucro do seu trabalho.
Havia pouco tempo que estavam morando em Maipu, quando receberam a triste notícia do falecimento do Ivair, irmão mais velho do Ivaldeck, também engajado na luta contra a opressão da ditadura. Morava em Recife com a mulher e a filha de três meses de idade. Morreu no “acidente de carro” provocado por um caminhão que bateu justamente no lugar onde ele estava sentado, quando voltava de uma favela após ter cumprido a tarefa de distribuir alimentos numa atividade promovida pela igreja católica. Estava ele e o motorista, mas com este último não aconteceu nada. Na época, seus irmãos não sabiam que ele já tinha sido preso e torturado pela polícia política e que havia uma nova ordem de prisão.
Segundo Ignez, nas manifestações de apoio ao governo do Presidente Salvador Allende havia uma alegria contagiante; famílias inteiras iam para a Praça de La Moneda cantar, saudar, declarar de várias formas o seu apoio, participando da Unidade Popular. Com frio ou com calor, era uma festa, a festa do povo. E, sempre que eles participavam, ficavam pensando que um dia os brasileiros também fariam uma festa assim. Havia a certeza de que a resistência à ditadura ia ser vitoriosa, e toda dor do corpo e da alma não teria sido em vão.
Eram muitos os refugiados brasileiros no Chile, mas refugiados operários eram poucos. Ignez e Ivaldeck faziam parte dessa minoria. A maior parte dos refugiados brasileiros era formada por estudantes, professores, cientistas, economistas, engenheiros, médicos, arquiteto, escritores, jornalistas e marinheiros. Uma parcela desses refugiados estava inserida na efervescência política chilena, assim como outros refugiados, latinos sul americanos. A quantidade de refugiados políticos, concentrada no Chile, era uma denúncia espontânea para o mundo, a respeito das ditaduras na América do Sul. Com o golpe militar no Chile, todos foram perseguidos e muitos foram assassinados, como os brasileiros Tulio Roberto Cardoso Quintiliano, Jane Vanini, Vânio José de Matos, além dos brasileiros desaparecidos: Nelson de Souza Kohl e Luiz Carlos Almeida.
As medidas nacionalistas de cunho socialista do governo Allende, exigidas e apoiadas pela participação ativa dos trabalhadores dos vários setores da sociedade, nas lutas políticas através dos partidos políticos e de várias formas de organização popular, ameaçavam os interesses da elite empresarial e dos setores reacionários associados ao capitalismo internacional. Os Estados Unidos passaram a financiar o golpe de Estado, a exemplo do que já havia feito em outros países, como no Brasil. Os “camineros/camioneiros” recebiam em dólar por cada dia não trabalhado. A ordem era não abastecer o mercado. A produção inteira de algumas indústrias que ainda não tinham sido tomadas pelos operários era comprada e destruída para provocar a sua ausência no mercado, como chupetas para os bebês, que foram jogadas em um rio. Era uma sabotagem permanente contra o Departamento Nacional de Abastecimento (DINAC). Assim, como no Brasil, a imprensa burguesa, políticos, juristas e militares reacionários receberam fortunas para golpear o governo democrático eleito e apoiado pelo povo. Em 29 de junho de 1973, essas forças reacionárias e fascistas tentaram dar o golpe, porém, não conseguiram porque grande parte das forças armadas não deu apoio ao ”tancazo” ou “tanquetazo”.
Mas, com alegações falsas, o Exército conseguiu autorização para efetuar “buscas” nos locais de trabalho e nas comunidades, com base na Lei de Controle de Armas e Explosivos. Foi uma maneira de desestruturar a organização popular. Na fábrica onde trabalhavam, umas semanas antes do golpe, foi realizada uma busca. Procuravam pelo “brasileño”, mas como na fábrica os trabalhadores chamavam de “brasileño” o outro brasileiro, o Saboya (brasileiro que tinha sido preso e cruelmente torturado no Brasil e tinha o corpo coberto de marcas de tortura). Por sorte, ele havia saído um pouco antes de os soldados chegarem, e Ivaldeck não foi identificado. Ignez estava em casa de licença, em repouso absoluto, pois estava grávida e havia sofrido mais uma ameaça de aborto; creio que devido o estado de tensão que estávamos passando.
No dia onze de setembro de 1973, essas mesmas forças reacionárias fascistas golpearam o Chile, assim como já haviam feito em vários países latinos americanos. Sob o comando do General Pinochet, os militares fiéis à Constituição, à legalidade, foram feitos prisioneiros. Com as buscas praticadas nas fábricas e nas comunidades por setores das forças armadas após o “tancazo”, os golpistas tinham certeza, também, que o povo, mesmo politizado, disposto a lutar, estava desarmado. Na manhã do dia 11 de setembro de 1973, terça-feira, quando Ivaldeck saiu cedo do apartamento para o trabalho, logo se deparou com uma grande movimentação na Escola de Carabineiros, que ficava bem perto da Praça Zañartu onde moravam há alguns meses. Preocupado, correu em casa e avisou Ignez antes de se dirigir, por outro caminho, até a fábrica.
Depois de algumas horas, Ivaldeck chegou com um amigo, que os levou para a casa de sua mãe, onde ficaram até a suspensão do “estado de guerra”. O povo estava com medo de abrigar estrangeiros devido às ameaças anunciadas nas rádios pelos golpistas e através de panfletos que diziam: “chilenos, denunciem os estrangeiros, eles vieram ao Chile para matar chilenos, aquele que for encontrado dando abrigo a estrangeiro também, será condenado”. A mãe do amigo deles estava apavorada, não só pelas ameaças, mas, principalmente, pelos voos rasantes dos helicópteros sobre as casas, e os bombardeios constantes nas comunidades. Realmente, era aterrorizante, ensurdecedor, tudo tremia. Então, no intervalo entre a suspensão do “estado de guerra/estado de sítio” e a declaração do “toque de recolher”, depois de quatro ou cinco dias, foram levados de carro, novamente, às escondidas para o apartamento onde moravam. Chegando próximo à Praça Zañartu, observaram que havia perfurações nas paredes do apartamento. Ignez resolveu ir até o apartamento, pois se Ivaldeck fosse, seria logo reconhecido. Próximo à porta arrombada do apartamento estavam vários desenhos da filha, espalhados e pisoteados. Quando Ignez entrou na sala, percebeu que teriam sido mortos se tivessem ficado em casa. As paredes perfuradas de balas, tudo revirado, os brinquedos, livros e desenhos destruídos, não havia nada no lugar. Voltou então para o carro, e o amigo os levou para a casa de outros amigos da comunidade de San Luís, ainda na região de Macul, onde ficaram até o dia em que a Junta Militar deu ordens para o povo voltar ao trabalho, em 24 ou 25 de setembro daquele ano. Durante os dias em que ficaram escondidos dentro da casa dos amigos em San Luís, só falavam muito baixinho, sem saber se os vizinhos continuavam companheiros ou se por medo haviam aderido aos golpistas.
No percurso entre os bairros, viram homens mortos dependurados nas árvores e nos postes, meninos e jovens de braços levantados, virados para a parede, outros de bruços deitados no chão, todos sendo revistados com violência pelos militares de fuzis na mão. Essas imagens, mais as imagens do apartamento invadido e tantas outras davam a certeza de que seria muito difícil a sobrevivência no Chile. A presença deles colocava toda família dos amigos em risco. No dia em que a Junta Militar golpista convocou o povo para voltar ao trabalho, combinaram de sair da casa bem cedo, assim que amanhecesse. E assim o fizeram: com Débora ainda dormindo, em silêncio caminharam a pé e ficaram numa parada de ônibus bem distante de onde estavam abrigados. Os ônibus, seguidamente, passavam lotados e não paravam. Ficaram horas esperando até conseguir tomar a condução. Desceram do ônibus próximo à fábrica, onde já havia muitos companheiros e logo foram alertados para não entrar na fábrica. Tomaram conhecimento de que estavam sendo procurados nominalmente, através dos jornais golpistas, os únicos que circulavam (El Mercúrio e Tribuna).
Como não tinham possibilidade de entrar em uma Embaixada, como muitos estrangeiros estavam fazendo, devido ao estado de saúde de Ignez, resolveram voltar para o apartamento, para não colocar nenhum amigo em risco. Porém, era preciso limpar um pouco o apartamento. Combinaram que Ignez iria para o apartamento, enquanto Ivaldeck seguiria até o centro de Santiago para pedir ajuda ao Cardeal D. Henrique, e pedir também que ele enviasse notícias para D. Clemente, que passaria para suas famílias no Brasil. Dom Henrique, ao tomar conhecimento da situação, do risco que corriam, além de atender o pedido de enviar notícias, decidiu lhes dar abrigo num antigo colégio de religiosos – Padre Hurtado, na região de Maipu. Com um religioso de origem francesa partiram para a região de Cerrillos. Como já era tarde, com o toque de recolher, não haveria tempo de chegar ao Colégio Padre Hurtado, então tiveram que pernoitar na casa dele, numa comunidade. Assim que amanheceu, se dirigiram ao Colégio Padre Hurtado, onde foram os primeiros refugiados a abrigar o local, no dia 27 de setembro. No dia seguinte, à noite, chegou a segunda família brasileira, com pai, mãe e seis filhos. O Padre Hurtado ainda não era um refúgio oficial, e as duas famílias corriam grande risco. Ivaldeck raspou o bigode e Ignez cortei o cabelo. No dia 29 de setembro o local foi transformado, oficialmente, em refúgio sob a custódia da Cruz Vermelha e das Nações Unidas.
A partir desse momento, a cada instante a quantidade de refugiados políticos, de várias nacionalidades, se avolumava. Famílias inteiras, outras fragmentadas constituíam a população daquele abrigo onde a dor era o sentimento estampado na face de todos, mesmo naqueles rostos que tentavam dissimular a própria dor para aliviar a dor do outro. O Cardeal D. Henrique e sua equipe de padres, discretamente, foram incansáveis na defesa dos perseguidos pelo golpe. Graças à solidariedade deles, muitos companheiros de luta foram salvos. O padre Roque era um brasileiro do Paraná, e ajudou muito os estrangeiros do Refúgio Padre Hurtado. Era o contato com os amigos e vizinhos. Ele levava e trazia notícias. Fez várias diligências por toda cidade de Santiago para obter informações sobre os perseguidos, recuperar documentos e objetos solicitados pelos refugiados. Ainda no Refúgio Padre Hurtado, tomaram conhecimento que a polícia política brasileira estava presente no Estádio Nacional, interrogando e torturando brasileiros que lá estavam detidos e instruindo os torturadores chilenos. Era mais uma prova de que a ditadura brasileira monitorou a vida de todos os brasileiros refugiados no Chile. O golpe sanguinário de Pinochet foi patrocinado pelo imperialismo estadunidense e pelas ditaduras do Cone Sul, que criaram a Operação Condor para reprimir e desbaratar as organizações de esquerda em todo o continente.
Ficaram no refúgio até a tarde do dia 14 de novembro daquele ano: mais de dois meses, sessenta e quatro dias de angústia. Cada refugiado que chegava trazia notícias das atrocidades cometidas, como o que aconteceu com o marido da Valquíria, uma das refugiadas do Colégio Padre Hurtado. Segundo ela, seu marido fora preso e levado para o Estádio Nacional. Conseguiu escapar da morte no Cajón de Maipo, para onde havia sido levado à noite com mais de trinta prisioneiros, porque se jogou no abismo e teve a sorte de cair numa fenda do despenhadeiro, os tiros atingiram apenas um dos seus pés. Fez-se de morto, só saindo do local de madrugada, quando teve a certeza de que o pelotão de fuzilamento já não estava mais lá. Fingindo-se de bêbado, tomou o primeiro ônibus para o centro de Santiago e conseguiu entrar numa Embaixada.
Mesmo o Refúgio sendo considerado território das Nações Unidas, eles temiam que fosse invadido pelas forças de repressão. A ida de um dos generais golpistas ao refúgio os deixou bastante preocupados, porém, como souberam da “visita” com certa antecedência, organizaram-se na capela do refúgio, colocando as crianças fora do seu alcance e combinaram que ninguém lhe daria uma palavra, que fariam silêncio absoluto. Unidos, mudos e surdos resistimos. Todavia, a preocupação de o Refúgio ser invadido pelos golpistas fez com que fosse decidido pelas lideranças políticas dos refugiados que os perseguidos estrangeiros mais procurados deveriam tentar entrar numa embaixada. O esquema foi montado incluindo Ivaldeck e mais três companheiros, um deles baleado com a perna enfaixada. Os quatro foram de ônibus para o centro de Santiago, e segundo eles, lá havia um carro da Embaixada da Suécia esperando-os. Foram levados para a residência do embaixador, mas como, momentos antes, a casa havia sido invadida por vários perseguidos políticos, não puderam ficar, pois não havia mesmo mais espaço físico, o embaixador já não sabia mais o que fazer. A Embaixada estava superlotada e a sua casa também. Os quatro foram levados de volta no mesmo carro até uma rua, num ponto combinado. Enquanto esperavam a condução, perceberam, ao longe, no início da mesma rua, um pelotão de busca e, como o carro da Embaixada já havia partido, entraram num bar. A sorte é que o garçom e o dono do estabelecimento perceberam a situação e, disfarçadamente, mandou que os quatro entrassem e fossem para o fundo de um depósito de mercadorias na parte posterior do prédio. Eles só os chamaram quando tiveram a certeza de que o perigo havia passado. Os três voltaram de ônibus e chegaram ao refúgio Padre Hurtado apavorados com o risco que correram.
As instituições Cruz Vermelha e Nações Unidas deram início à documentação necessária para que os refugiados pudessem sair do Chile. Todos os que lá estavam se tornariam exilados políticos. Ignez e Ivaldeck estavam listados no primeiro grupo a sair do refúgio Padre Hurtado. Sua viagem foi marcada para o início da segunda semana de novembro. No dia marcado, depois de uma calorosa despedida dos companheiros, foram levados pelos órgãos responsáveis da ONU para o aeroporto. Entretanto, não foi possível o embarque, pois a aeronave que os levaria tinha escala marcada na cidade do Rio de Janeiro e, como o governo ditatorial do Brasil não garantiu a inviolabilidade da aeronave sob custódia da ONU, a viagem foi cancelada. A viagem foi logo remarcada, e houve mais uma calorosa despedida, com muita emoção.
No dia quatorze de novembro, partiram mais uma vez para o aeroporto. Não haveria escala no Brasil. Todos os passageiros daquele voo eram refugiados, de diversas nacionalidades e com destinos distintos. A maioria estava indo para a Suécia. A primeira escala foi na Argentina; chegaram a Buenos Aires no finalzinho da tarde. Viajaram a noite toda e chegaram ao continente africano, em Dakar, pela manhã do dia quinze. Ficaram algumas horas no aeroporto. A terceira escala aconteceu na cidade de Nice; Ignez já estava sentindo as contrações. Chegaram a Paris ao anoitecer do mesmo dia. No aeroporto, havia uma comissão de apoio aos refugiados para os receber. Numa Kombi, junto com uma família uruguaia que estava refugiada numa embaixada, foram levados para um refúgio em Bièvres, próximo a Versailles. Lá já havia três famílias de refugiados políticos, vítimas também do golpe militar chileno: um brasileiro e dois uruguaios que foram prisioneiros no Estádio Nacional e resgatados pela Cruz Vermelha e pela ONU. Exausta e não se sentindo bem, Ignez foi para o quarto com Débora. Ivaldeck ficou conversando um pouco mais com a outra família brasileira.
Logo no início da madrugada do dia dezesseis, sexta-feira, as contrações se acentuaram e a bolsa d’água se rompeu. Ivaldeck pediu à família brasileira que cuidasse da Débora, que dormia. Na maternidade, às 5h o bebê nasceu. Embora houvesse a dificuldade de compreender o idioma, o generoso gesto da médica de colocar o filho nos braços de Ignez antes mesmo de cortar o cordão umbilical, fez renascer nela a esperança. Fisicamente muito debilitada, ela ficou oito dias internada na Maternidade Pública em Sant Denis com o bebê ao seu lado. Diariamente, recebiam a visita de uma equipe médica.
Ainda estavam em Bièvres, quando, numa noite, foram surpreendidos por um tiroteio contra o prédio do refúgio, efetuado por jovens fascistas. Só não entraram porque foram rechaçados pelos dois franceses que trabalhavam na instituição. A polícia foi acionada e, mesmo assim, tentaram voltar outras vezes, porém sem êxito. Foi mais um momento assustador. Por outro lado, foram acolhidos por várias famílias solidárias. Ivaldeck logo conseguiu emprego através do Comitê de Apoio aos Refugiados. Foi trabalhar numa fábrica nos arredores de Paris, onde teve de morar num hotel de trabalhadores; só se encontravam nos finais de semana. Em fevereiro do ano seguinte, foram convidados a morar com uma família francesa, cujo apartamento ficava mais perto do trabalho do Ivaldeck, até que conseguissem alugar um apartamento no sistema HLM. Em primeiro de março o apartamento foi liberado, e, com a ajuda do governo francês e dos comitês de apoio aos refugiados, eles conseguiram recomeçar de fato suas vidas. Foram bem acolhidos, tanto na escola como na vizinhança, e fizeram muitas amizades com franceses, portugueses, italianos, mexicanos, espanhóis e brasileiros que lá viviam. Esse convívio os ajudou muito, mas, mesmo assim, levaram um bom tempo para se recuperar de tudo.
Segundo as normas para os refugiados políticos, eles estavam impedidos de participar de toda e qualquer atividade pública de política do país. Mas o objetivo principal era denunciar para um maior número de pessoas os horrores das ditaduras no Cone Sul, principalmente, no Brasil, e foi o que fizeram durante todo o tempo em que lá estiveram. Participaram também do movimento dos brasileiros no exílio pela volta da democracia.
Graças à luta de todos, dentro e fora do país, a ditadura brasileira foi condenada pelos tribunais internacionais. Ficaram na França de novembro de 1973 a abril de 1979. O seu retorno, como o retorno de todos os refugiados, foi acompanhado pela Comissão de Anistia. Eles estavam entre os primeiros a retornar ao país. E logo assim que chegaram ao Brasil, deram início aos trâmites para recuperar a vida profissional. Ivaldeck conseguiu voltar para a mesma indústria em que trabalhava. Ignez, depois de verificar a situação funcional, em 23/05/1979, requereu a reassunção à Secretaria Estadual de Educação, uma vez que não tinha sido exonerada do cargo. Ela era professora concursada do Ensino Primário Estadual e, através de um procurador, havia renovado o pedido de licença sem vencimentos. Em 1976, segundo informação do CRECT-NF ao procurador, a solicitação havia sido indeferida, portanto, ela teria de voltar ou solicitar a exoneração. Então, foi feito o pedido de exoneração. Porém, à medida que entrou com o pedido de reassunção, fui constatando através dos processos algumas contradições nas informações dadas pelo CRECT-NF, como: 1- o seu segundo pedido de licença sem vencimentos não tinha sido concluído, portanto a informação de que havia sido indeferido não era verdadeira. 2- Se o pedido de licença sem vencimentos não tinha sido concluído, não havia exigência de pedido de exoneração. Resumindo, inúmeras diligências foram feitas para que o seu Processo de Reassunção fosse deferido, e somente em 24/01/1986, após seis anos e oito meses, ele foi publicado. Até hoje Ignez está lutando para que os seus direitos referentes ao período de maio/1979 a janeiro/1986, como servidora aposentada do Estado, sejam respeitados. A última correspondência neste sentido foi enviada ao Departamento de Direitos e Vantagens da SEEDUC, através de processo datada de l9/05/2014.
2) Ivaldeck Barreto (08/11/2014)
Testemunho concedido por Ivaldeck Barreto em sua residência, no dia 08 de novembro de 2014, para os membros da Comissão da Verdade Chico Bravo. Estavam presentes Ricardo Costa, Carlos André Rodrigues Pedrazzi, André Mello, Paulo Pires, além de Maria Ignez Breder e Vânia Rosângela Machado. O objetivo era coletar mais informações sobre os anos iniciais da militância deles em Nova Friburgo e a perseguição política sofrida após o golpe de 1964. O início da militância política de Ivaldeck se deu na JOC, conforme já relatado no testemunho anterior. A JOC foi criada por padres católicos de esquerda, voltados a desenvolver um trabalho de evangelização junto à classe operária, através do método “Ver, Julgar e Agir”. O militante via um problema na fábrica, como, por exemplo, o trabalho de um menor, levava o caso para a reunião da organização, onde a situação era analisada, do ponto de vista social, demandando uma determinada ação, um posicionamento no sentido de lutar contra aquele tipo de exploração. Ivaldeck teve seu primeiro contato com a JOC nos primeiros anos da década de 1960, quando, com 13 anos, estudava no SENAI. Ivaldeck e um grupo de colegas do SENAI mantiveram contato, em missas realizadas no Colégio Anchieta, com irmãos jesuítas espanhóis (Allende e Cartelli) que viviam em Friburgo e defendiam um posicionamento mais progressista dentro da Igreja. Foi no próprio Colégio Anchieta em que eles começaram a participar de reuniões da JOC. Depois vieram os padres Rafael e Salvador, que foram posteriormente denunciados como subversivos e tiveram de sair do Brasil. Outro que estimulou as atividades da JOC foi o Bispo Dom Clemente Isnard, que chegou em Friburgo no ano de 1960.
Dos 13 aos 16 anos, Ivaldeck participou das atividades da JOC, a exemplo do I Congresso dos Jovens Trabalhadores, realizado em outubro de 1963, no SENAI de Nova Friburgo, consequência do trabalho realizado no meio operário envolvendo a luta contra a exploração sofrida nas fábricas e dentro do contexto nacional de lutas e mobilizações em favor das Reformas de Base propostas por João Goulart. Da comissão organizadora do Congresso, responsável pela sua divulgação na cidade, feita por meio de pichações e colagens de cartazes nos bairros, participaram 33 jovens (10 militantes homens da JOC, 5 mulheres e 18 convidados). O Congresso contou com a participação de representação dos trabalhadores de inúmeras fábricas. Das resoluções do Congresso (cujos cadernos foram queimados para que não fossem encontrados pela repressão, constaram centralmente propostas de luta contra o trabalho de menores, a sonegação de direitos e a superexploração das mulheres, assim como reivindicações em prol de medidas de segurança no ambiente de trabalho.
Em 1963, Ivaldeck tornou-se dirigente da JOC no município, ajudando a organizar vários núcleos locais, como os núcleos femininos da Catedral, do Colégio Nossa Senhora das Dores, dentre outros. A JOC costumava se reunir (em grupos separados por gênero: JOC masculina e JOC feminina) numa sala emprestada pela Sra. Conceição Abicalil, dona do Externato São José, então localizado no imóvel situado na esquina da Rua Dante Laginestra com a Praça Dermeval Barbosa Moreira (hoje Willisau). Também foram criados grupos da JOC em Cordeiro e Cantagalo, com participação de operárias de confecções têxteis.
A luta pelas reformas de base envolvia questões como a reforma agrária (bandeira que era defendida prioritariamente pela JAC – Juventude Agrária Católica, na divisão de tarefas promovida pelos dirigentes da Ação Católica), habitação popular (questão muito trabalhada pelos sindicalistas, com a proposta do Fundo de Habitação para os trabalhadores, que garantisse financiamento para a casa própria, numa época em que algumas fábricas disponibilizavam casas para “alguns trabalhadores privilegiados”, mas a maioria ficava sem acesso à moradia, segundo palavras de Ivaldeck), dentre outras, reivindicações estas que possibilitavam a discussão dos problemas nacionais e a defesa de soluções a partir de uma intensa participação popular. Na tentativa de organizar trabalhadores nestas lutas, é que atuavam também os Grupos dos Onze, estruturado nacionalmente por Leonel Brizola no movimento pela Defesa da Legalidade contra a primeira tentativa de golpe e de impedimento da posse de Jango na presidência da República (1961). Tratava-se de um trabalho que visava à conscientização das massas, conforme o depoimento de Ivaldeck.
Ivaldeck, dentro da cerâmica Caledônia em que trabalhava, localizada no bairro de Olaria, fazia o trabalho político junto aos operários. Com Nelson Nideck, operário, e trabalhadores de outras fábricas, compôs, em Olaria, o Grupo dos Onze. É dessa época o primeiro contato com o pai de Vânia Rosângela Machado, o ferramenteiro Guilherme Machado, integrante do Grupo dos Onze que organizava trabalhadores dos bairros Ypu, Perissê e Catarcione. Havia contatos com os comunistas e socialistas organizados na cidade, mas sem uma relação mais estreita. Dos Grupos dos Onze participavam principalmente pessoas ligadas ao PTB. Numa família de seis irmãos, Ivair Barreto, irmão mais velho de Ivaldeck, chegou a ser o responsável pela JOC de Friburgo, abandonando o passado de ligações com a Congregação Mariana, conservadora ordem católica. Na época, trabalhava na Fábrica de Filó e, por causa de suas posições políticas favoráveis às mudanças sociais, era muito perseguido por seus superiores. Depois do golpe, foi morar em Recife, onde, no início da década de 1970, morreu em condições suspeitas num acidente de automóvel.
Ivaldeck começou a fazer um movimento de sindicalização dos operários da fábrica Caledônia, ligada ao setor da construção civil. Como era ferramenteiro, atuou também no Sindicato dos Metalúrgicos, mas o trabalho foi interrompido pelo golpe de 1964. Em Friburgo, Dom Clemente não permitiu a realização de passeatas, como a Marcha com Deus e a Família pela Liberdade, nem da TFP, que ocorreram em outros pontos do país. Mas, antes do golpe, caminhões carregados de produtos alimentícios importados dos EUA, incluindo as famosas latas de leite em pó, fizeram a propaganda da Aliança para o Progresso, programa do governo Kennedy que pretendia reduzir a influência dos partidos e movimentos de esquerda junto à população, através da doação de alimentos e outras iniciativas paliativas de combate à fome e à miséria nos países da América Latina.
Ivaldeck e Maria Ignez Breder atuaram também no movimento estudantil, quando estudavam no Colégio Municipal Rui Barbosa (atual Colégio Estadual Jamil El-Jaick), no horário noturno, e participaram ativamente das disputas havidas no interior do Parlamento Estudantil, entidade representativa dos estudantes friburguenses. O contato maior era com estudantes de origem operária ou que trabalhavam durante o dia, como era o caso de Ivaldeck e Ignez. O trabalho político era facilitado pelo estímulo às discussões dos problemas sociais e ao método de ensino baseado na construção coletiva do conhecimento, práticas desenvolvidas no Colégio Rui Barbosa pelo diretor, Prof. Humberto El-Jaick, o qual, não por acaso, foi cassado pelo regime ditatorial quando ocupava a cadeira de deputado federal, em 1966. A entidade representativa dos estudantes do Colégio era o CERB (Centro Estudantil Rui Barbosa), e Ivaldeck foi eleito deputado, para representar a escola no Parlamento Estudantil de Friburgo.
Em 1º de abril de 1964, Ivaldeck e seus companheiros de trabalho ouviram a notícia do golpe por um radinho de pilha dentro da fábrica e resolveram, em protesto, paralisar as atividades da empresa na parte da tarde. Juntaram-se aos operários de outras fábricas, como a Indústria Azenclever, cerâmicas e pequenas oficinas mecânicas do bairro de Olaria, que também paralisaram o trabalho. Fizeram uma passeata em direção ao centro da cidade, parando em frente à Fábrica de Rendas Arp, onde os operários já haviam tomado toda a rua. Improvisaram pequenos comícios, discursando em favor da legalidade democrática e contra o golpe. Vários fuzileiros do Sanatório Naval encontravam-se de prontidão, com metralhadoras nas mãos, ao redor da Praça Marcílio Dias, no Paissandu, mas não houve repressão naquele momento. À noite, Ivaldeck foi ao Colégio Rui Barbosa, onde os integrantes do CERB se reuniram e, juntamente a outros estudantes, no pátio da escola, proferiram discursos contra o golpe. As aulas acabaram sendo suspensas.
Após o golpe, na primeira reunião da JOC, tomaram conhecimento das prisões e perseguições sofridas por militantes da Ação Católica (ligados à JOC, JEC – Juventude Estudantil – e JUC – Juventude Universitária). No terceiro dia do golpe, a sede da JOC no Rio de Janeiro foi invadida e depredada por grupos de direita. Em Friburgo, houve o caso da invasão de um sítio em Mury por agentes da repressão, em que o caseiro, achando tratar-se de uma tentativa de assalto, atirou e matou um dos policiais.
O Engenheiro Heródoto Bento de Mello, que se apoderou da cadeira de prefeito após articulações feitas com o Sanatório Naval para que Vanor Tassara Moreira renunciasse à força, fez de tudo para fechar o Colégio Rui Barbosa, primeiro ginásio público da história de Nova Friburgo, aberto no ano de 1958 e mantido até o golpe, com muita perseverança pelo casal Humberto e Zeir El-Jaick, que chegavam a se responsabilizar pela limpeza da escola toda noite, após o encerramento das aulas. O prédio da escola, uma antiga fábrica de linhas e carretéis, havia sido desapropriado durante o governo do Prefeito Feliciano Costa (1955-1958) para abrigar o ginásio, onde os estudantes, principalmente do horário noturno, em sua imensa maioria trabalhadores, dedicavam-se a ajudar na limpeza e em inúmeras tarefas de conservação do espaço, numa ação coletiva solidária. Com o golpe de 1964, essa experiência, que muito contribuiu para a formação de lideranças políticas e uma consciência de classe entre os estudantes operários, foi brutalmente interrompida.
Em virtude das constantes homenagens feitas pelos estudantes a Humberto El-Jaick, que insistiam em indicar seu nome como paraninfo nas formaturas, pedidos sempre negados pelos interventores que assumiram a direção da escola, o colégio foi transformado numa fundação educacional, ficou fechado um tempo e foi reaberto na condição de escola estadual (que depois recebeu o nome de Colégio Estadual Jamil El-Jaick).
Após o golpe, em agosto de 1964, Ivaldeck teve de se afastar de Friburgo, e foi chamado pela JOC da Guanabara para se dirigir ao Rio de Janeiro, junto ao Episcopado coordenado por Dom Hélder Câmara, onde a Ação Católica exercia forte influência. Além de trabalhar em fábrica, Ivaldeck atuou na militância católica na condição de dirigente da JOC regional, vendendo o jornal Juventude Trabalhadora na Central do Brasil e coordenando grupos que se dedicavam às tarefas sindicais e a trabalhos junto às comunidades do subúrbio. Ivaldeck, então com 17 anos, tinha grandes responsabilidades na JOC e chegou a participar de 12 reuniões num mesmo fim de semana, tamanha era a sua dedicação a esta militância. Houve um momento em que ele assumiu a condição de “permanente” da JOC, ou seja, fazia a militância com dedicação integral ao movimento, para o que teve de deixar o emprego na fábrica. Participou inclusive de reunião no interior da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), Volta Redonda, numa sala do sindicato dos metalúrgicos.
Já na condição de militante da Ação Popular (AP), Ivaldeck retornou a Friburgo em 1967, quando passou a trabalhar na Metalúrgica Virtus e a se dedicar à militância sindical, incluindo participação em greve na fábrica por causa de atraso de salários. Na negociação com o patrão, quando este perguntou quem era o “líder” do movimento, os operários voltaram os seus olhares para ele, quando a combinação era que todos falassem, assumindo a responsabilidade coletiva da luta. Ivaldeck foi obrigado a tomar a dianteira na conversa com o patrão, num momento em que havia sido orientado a não aparecer com destaque nos movimentos, pois já era bastante visado pela repressão. Mas Ivaldeck não se fez de rogado e chegou a criticar o fato de o dono da fábrica ter aparecido com um Alfa Romeo zero quilômetro, enquanto os trabalhadores estavam sem receber. No dia seguinte, foi demitido.
Conseguiu emprego de ferramenteiro na Fábrica Mitroplast e, em seguida, na Ferragens Haga, onde foi o mais novo operário a receber o salário teto da categoria, por sua especialização. Continuou atuando no movimento sindical, tendo participado de diversos encontros de trabalhadores metalúrgicos no Estado e no Congresso Nacional de Metalúrgicos, ocorrido em Blumenau, Santa Catarina, em setembro de 1968, sempre eleito como delegado em assembleias de base. Neste congresso, houve embate de setores oposicionistas, sediados principalmente no Estado do Rio de Janeiro, contra os pelegos que dominavam a Confederação Nacional. Como protesto às declarações do arquipelego Ari Campista em favor da ditadura e por causa do jogo de cartas marcadas dentro do congresso, 140 dos 347 delegados abandonaram o evento logo após a aprovação do regimento interno. Na volta do congresso, em Friburgo, agentes do DOPS procuraram por Ivaldeck no sindicato. Em agosto de 1970, Ivaldeck foi novamente eleito delegado para o Congresso Nacional dos Metalúrgicos em Salvador, na Bahia. Deste congresso participaram, como jovens delegados sindicais de São Bernardo do Campo, Vicentinho e Luís Inácio da Silva, o Lula, assim como Juarez Antunes, de Volta Redonda.
Juntamente com outros militantes da AP de Nova Friburgo e região, Ivaldeck passou a integrar a VAR-Palmares na década de 1970.
3) Sérgio El-Jaick (11/12/2014)
O sociólogo, advogado e professor de História Sérgio El-Jaick concedeu seu testemunho no dia 11 de dezembro de 2014 em atividade promovida pela Comissão da Verdade Chico Bravo no auditório da 9ª Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB de Nova Friburgo). Sérgio iniciou sua fala lembrando do seu tio, o advogado Jorge El-Jaick, o qual tornou-se militante do Partido Comunista em Nova Friburgo na sua juventude nos anos 1930 e foi preso pelo Estado Novo, tendo sido companheiro de prisão de Nise da Silveira e de Graciliano Ramos, que cita seu nome no célebre livro “Memórias do Cárcere”. Segundo Sérgio, seu tio, durante a ditadura militar imposta em 1964, era preso nas vésperas de todas as datas cívicas, como 1º de Maio, 15 de Novembro, etc, para evitar que ele participasse de alguma manifestação contra o regime. O tio já possuía até um “kit prisão”, uma valise com escova e pasta de dente, muda de roupa e outros apetrechos para estas ocasiões.
Em seguida, falou da prisão de seu outro tio, Humberto El-Jaick, que foi levado pela polícia logo após o golpe de 1964, quando era diretor do Colégio Rui Barbosa, onde Sérgio concluiu o ensino médio no ano anterior. Humberto foi enviado ao Estádio Caio Martins em Niterói, onde ficaram encarcerados centenas de presos políticos. No dia 1º de abril, Jorge El-Jaick ligou para Sérgio pedindo para que este se dirigisse à sua residência, na Rua Farinha Filho, a fim de retirar e esconder toda a documentação, livros, carnê de contribuição e objetos do Partido Comunista que lá se encontravam. Jorge saiu de Friburgo, mas acabou preso no Rio de Janeiro. Em Nova Friburgo, o golpe foi apoiado por setores da Igreja Católica, que foram para a praça fazer manifestação em favor do regime militar, sob liderança de alguns padres como o padre Francisco Miele. Setores consideráveis da Igreja apoiaram a ditadura em seu início, mas houve também aqueles membros da instituição que passaram a lutar na resistência, como o Padre Gérson. Outro exemplo de resistência dentro da Igreja foi a do Bispo Dom Clemente Isnard Teixeira, que protegeu e salvou muitas pessoas perseguidas pela ditadura, escondendo-as ou ajudando-as a fugir.
Em 1965, Humberto El-Jaick foi solto para assumir a cadeira de deputado federal em Brasília, pois era quarto suplente do PTB no Estado do Rio de Janeiro e muitos deputados tinham sido cassados. Ele ficou na Câmara Federal até 1967, quando se candidatou para a reeleição, foi vitorioso, mas acabou também sendo vítima da cassação e tendo seus direitos políticos suspensos por dez anos (somente em 2013 o Congresso Nacional devolveu simbolicamente os mandatos dos deputados cassados pela ditadura). Na época, Humberto ficou totalmente sem dinheiro, tendo mulher e seis filhos pequenos para sustentar. Sua esposa, Zeir Ventura El-Jaick, irmã do jornalista e escritor Zuenir Ventura, professora municipal, teve seus vencimentos bloqueados pelo então Prefeito Heródoto Bento de Mello. Segundo depoimento de uma pessoa que foi ao Prefeito pedir a liberação dos salários da amiga, devido às necessidades que a família estava passando, o Sr. Heródoto teria dito que “filho de comunista não precisa comer”. Zeir jamais esqueceria tamanha injustiça e, quando, décadas mais tarde, Ricardo El-Jaick, filho de Zeir, foi convidado a se candidatar a prefeito com apoio de Heródoto, ela lhe disse que não mais o consideraria seu filho, caso Ricardo aceitasse a proposta.
Ainda em 1964, Sérgio, tentou, sem sucesso, passar para as faculdades de Economia e Direito no Rio. No ano seguinte, resolveu então estudar Ciências Sociais na Faculdade de Filosofia Nossa Senhora Medianeira, que funcionava no Colégio Anchieta, em Nova Friburgo. O Vice-Reitor da Faculdade era um padre anticomunista oriundo da Letônia que começou a perseguir Sérgio por causa dos tios presos pela ditadura. Professor de Filosofia e Metodologia, o padre reacionário descia as escadarias do Colégio Anchieta esfregando as mãos de satisfação por ter ouvido reportagem sobre a Guerra do Vietnam e dizendo: “Hoje estou muito feliz, porque os americanos mataram mais de 300 comunistas”. Em virtude das perseguições que sofreu na Faculdade, Sérgio pediu transferência para a Universidade Federal Fluminense em Niterói, mas a documentação levou mais de um ano para ser liberada pelo Vice-Reitor. Na saída da Faculdade, Sérgio chegou a agarrar na batina do padre para lhe dizer que ele era uma vergonha para a Ordem dos Jesuítas e não tinha dignidade alguma para usar aquelas vestes. Formado em 1968, Sérgio ainda levou cinco anos para receber o diploma, em decorrência de problemas com os documentos da Faculdade Nossa Senhora Medianeira, que se transferiu para São Paulo.
Em 1967, Sérgio foi eleito vice-presidente do Diretório Central de Estudantes da UFF. Na posse da diretoria da entidade, lá estavam agentes do DOPS fotografando os presentes. Neste período, Sérgio foi recrutado pela Ação Popular, mas não ingressou na luta armada. Participava das reuniões da organização e ajudava a fazer pichações, distribuição de panfletos e outras atividades. Vinha todo o fim de semana para Friburgo encontrar a família e manter contatos com o grupo da AP local, liderado por Luiz Carlos Veronese, o “Careca”, e outros companheiros. Não tinha conhecimento de quem militava na organização, pois todos usavam codinomes, razão pela qual somente após a queda da ditadura soube que Moreira Franco havia sido militante da AP, com o codinome Moisés. Devido ao sofrimento de ver companheiros sendo presos, torturados e mortos, Sérgio teve sua saúde mental abalada, precisando fazer tratamento psiquiátrico durante vários anos.
Havia toda sorte de obstáculos para se conseguir trabalhar após a conquista do diploma universitário, pois os formandos eram obrigados a obter uma certidão de “bons antecedentes”, ou seja, de não envolvimento com qualquer atividade considerada subversiva, assim como o famigerado “atestado ideológico”. Como Sérgio já tinha sido fichado pela polícia, não conseguia retirar o documento, necessário para dar aulas na rede pública. Certa vez foi alertado por Dom Clemente Isnard de que seu nome estava incluído em uma lista, na 1ª Região Militar, com nomes de membros da Igreja Católica e de mais três ou quatro civis (dentre os quais aparecia o nome de Sérgio El-Jaick) vistos como perigosos ao regime, denúncia esta que foi encaminhada ao DOPS de Niterói, razão pela qual o atestado não era concedido.
Sérgio somente conseguiu a certidão que o liberaria para dar aula quando houve a criação do Estado da Guanabara e um policial civil (que atuava como infiltrado na Companhia de Habitação Popular do Estado do Rio de Janeiro, antiga COHAB, onde Sérgio trabalhou entre 1967 e 1973) orientou-o a se dirigir à Polícia Central sem dizer que era natural do interior do Estado, pois os arquivos da Guanabara ainda estavam sendo organizados, e o nome de Sérgio não apareceria como “subversivo”. Sérgio foi ao local com muito medo, pois sabia que muitos que iam buscar o documento, sem saber que já estavam com a prisão preventiva decretada, de lá não voltavam. A certidão expedida pelo DOPS, com data de 18 de março de 1975, dizia então que não constava registro de antecedentes em nome de Sérgio El-Jaick, o que representou o salvo conduto para ele trabalhar em escolas públicas, numa época em que não se contratava por concurso público. O documento ainda registrava a finalidade da certidão: “prova junto à Secretaria de Educação do Estado da Guanabara”.
Na COHAB, Sérgio testemunhou práticas tais como tráfico de influência de militares indicando pessoas para furar a fila dos inscritos no programa de habitação popular, assim como funcionários fantasmas e muita corrupção, o que desmente a falácia de alguns que hoje apregoam a volta da ditadura porque “naquele tempo não tinha corrupção”. Quando fez aniversário no ano de 1973, Sérgio se deu de presente a demissão daquele emprego e abriu um cursinho particular em São Gonçalo, junto com dois outros professores. Um dos seus sócios, que não pertencia a organização política alguma, foi preso e barbaramente torturado pelo simples fato de ter sido apresentado a um médico que estava sendo procurado pela polícia por ter feito parte da equipe que realizou a cirurgia plástica no Capitão Lamarca, guerrilheiro caçado pela repressão, que foi assassinado no ano de 1971. Sérgio chegou a esconder o amigo em seu apartamento, vivendo apavorado com aquela situação até o momento em que o colega se entregou ao DOPS de Niterói e foi levado para o quartel do Exército na Rua Barão de Mesquita, um dos mais temidos centros de torturas, de onde saiu com sérios problemas psíquicos.
Em 1975, Sérgio entrou para o Mestrado em História da UFF, na mesma turma de João Raimundo de Araújo e Sonia Rebel de Araújo. No mesmo ano começou a trabalhar como sociólogo do INPS. Em 1978 foi estudar na Argentina, como bolsista, para conhecer o sistema previdenciário do país vizinho, na época da ditadura do General Videla. No ano de 1981, participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Niterói, juntamente com João Raimundo, Godofredo Pinto, Lizst Vieira, etc. Em Nova Friburgo, após o processo de redemocratização, foi militante do PT e candidato a Prefeito em coligação das esquerdas no ano de 1992.
4) Carlos Pereira Guimarães (08/07/2015)
Em depoimento realizado no auditório do Sindicato dos Bancários de Nova Friburgo, no dia 08 de julho de 2015, Carlos Guimarães iniciou sua fala afirmando que, com muito orgulho, gosta de ser chamado de professor, embora já tenha sido também Vereador e Deputado Estadual. É formado no Curso de Pedagogia pela Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia e, ao longo de muitos anos, exerceu o magistério na própria Faculdade e no antigo Colégio Estadual Rui Barbosa, hoje Professor Jamil El-Jaick, onde também se tornou Diretor Geral, de 1979 até princípios da década de 80.
Iniciando o seu depoimento, o Professor falou sobre a criação do Parlamento Estudantil de Nova Friburgo em 1962 ou 1963, não se lembrando da data precisa. Ressaltou ainda que o Parlamento era uma instituição criada por alunos do ensino secundário de diversas escolas públicas e privadas de Nova Friburgo. Tratava-se de uma instituição “democrática”, já que cada escola elegia seus deputados para compor o plenário geral do parlamento. Segundo suas palavras, a discussão era intensa e profunda sobre temas de interesse dos alunos do município. As reuniões, a princípio, eram realizadas numa sala de um prédio da Av. Alberto Braune e que, após sua desativação, promovida pelo prefeito Vanor Moreira, as reuniões passaram a se realizar na calçada em frente ao prédio e, mais tarde, numa sala nos fundos do Ginásio Celso Peçanha. Diversas escolas tinham representação, tais como: Colégio Modelo, Colégio Rui Barbosa, Cêfel, principalmente colégios que tinham ensino noturno. Em 1964, após o golpe militar, o Parlamento Estudantil foi fechado pelo Sanatório Naval, sua sala trancada, e ele, como presidente do Parlamento, à época, foi intimado a fazer um depoimento no Sanatório Naval.
A seguir, Carlos Guimarães teceu considerações rápidas sobre a criação de um forte movimento cultural em Nova Friburgo, principalmente no campo do Teatro, significando uma resistência à ditadura militar recém implantada.
Entre 1964 e 1968, ele migrou para a cidade do Rio de Janeiro para aprofundamento de estudos e, ao retornar, foi convidado pela Diretora Yvone Lo Bianco a trabalhar como professor no Colégio Rui Barbosa, transformado em colégio Estadual Nova Friburgo e, mais tarde, Colégio Estadual Professor Jamil El-Jaick. Anos depois, tornou-se Diretor do Colégio em substituição a Dona Yvone. Interessante é que ele participou da criação da Sociedade Estadual dos Professores (SEP), origem do atual Sindicato Estadual de Profissionais de Educação (SEPE), que comandou a primeira greve dos professores estaduais, com intensa participação dos profissionais da educação de Nova Friburgo. Carlos Guimarães foi eleito para compor a comissão provisória da SEP de Nova Friburgo em assembleia realizada na ACIANF, tendo dirigido a assembleia de professores realizada na Faculdade de Filosofia Santa Doroteia, que decidiu pela adesão dos professores estaduais de Nova Friburgo à greve no Estado. A greve estadual foi proclamada numa grande assembleia realizada no Sindicato dos Marinheiros em Niterói, no sábado seguinte. Lembrou que Nova Friburgo levou a esta assembleia três ônibus cheios de professores e que ele, escalado para falar em nome da categoria de Nova Friburgo, foi muito aplaudido ao afirmar: “Se a assembleia aqui decidir parar, Friburgo para!”.
Outro relato interessante do depoente foi a respeito da convocação que ele, Rosalvo Magalhães, presidente do SINPRO (Sindicato dos Professores das escolas particulares)/NF, em cuja sede os professores da rede estadual realizavam seus encontros diários, assim como o Professor João Raimundo de Araújo, receberam para, a princípio, realizar “conversas” com o delegado de polícia Roulean na Delegacia de Polícia da Vila Amélia. Essa chamada foi uma sugestão da diretora do CREC (Coordenadoria Regional de Educação e Cultura, ligada à Secretaria Estadual de Educação), Alda Condack, segundo ele. Os três professores se reuniram e, de modo ingênuo, resolveram não comentar nada com outros professores, alegando necessidade de evitar pânico. Chegando à delegacia, foram surpreendidos, pois não se tratava de uma conversa com o delegado Roulien, mas sim a prestação de depoimento sobre a greve ao delegado da DPPS, Dr. Hélio, com depoimento datilografado por um funcionário e assinado após cada fala. Esses depoimentos foram individuais, solitários, sem a presença de advogados e de longa duração. Carlos Guimarães e João Raimundo foram os dois últimos e saíram da delegacia bastante tarde da noite.
Nas eleições de 1982, Carlos Guimarães elegeu-se Vereador da Câmara Municipal de Nova Friburgo e, em 1990, elegeu-se Deputado Estadual, ambas legislaturas pelo PDT. Foi também candidato a Prefeito de Nova Friburgo nas eleições de 1988 e de 1992, sem conseguir se eleger.
Perguntado sobre o papel do Sanatório Naval em Nova Friburgo, Carlos Guimarães revelou que, em 1964, prestou esclarecimentos ao Sanatório Naval, “(...) subindo naquele ônibus pequeno sem maiores consequências”. No entanto, embora não saiba de qualquer fato que revele tortura naquele estabelecimento, ele concorda com as pessoas que veem a instituição pairando sobre a cidade como um elemento de controle da população. Disse ele que era abordado por alguns cidadãos que sempre lhe diziam “Ô rapaz não faça isso. Cuidado, o Sanatório está de olho”.
5) Marlon Silva de Oliveira (17/08/2015)
Marlon iniciou seu testemunho procedendo a leitura da Portaria nº 750 de 24 de abril de 2014 do Ministério da Justiça, que reconheceu a condição de perseguido político a Waldemiro de Oliveira (seu pai) concedendo “anistia post mortem” a ele. O filho relatou a prisão do pai, ferroviário, sindicalista e militante do Partido Comunista Brasileiro em Cachoeiras de Macacu e do trauma provocado na família, logo quando veio o golpe militar. Não era nascido à época da prisão do pai e nem no período em que ele passou na clandestinidade, mas encontrava-se presente a irmã Rosângela, que atestava suas palavras. Marlon nasceu em 1974 e relata as agruras vividas pela família pela ausência forçada de seu pai. Cresceu ouvindo comentários sobre seu pai e isso lhe conferiu inspiração para cursar e se formar professor de História.
Waldemiro participou do movimento de resistência à ditadura na Fazenda Agro Brasil, em Cachoeiras de Macacu, com a formação de um núcleo favorável à reforma agrária na década de sessenta. Esse foi um dos principais pontos pelo qual ele foi questionado durante sua prisão. Marlon disse ainda aguardar material da Comissão Nacional da Verdade a respeito da trajetória de seu pai, mas informou ter conseguido cópia de um interrogatório de seu pai, cujo teor do documento ele entregava à Comissão da Verdade Chico Bravo. Relatou um comentário do pai que, pelo fato de ter colocado o nome de Wladimir em um dos seus filhos, sofreu tortura da parte de seus algozes. Falou de sua mãe, que, ainda hoje, no alto de seus oitenta e dois anos, não consegue falar palavras como “comunismo”. Citou um fato pitoresco em que ela ligou para ele para dizer que comprou um livro chamado “O Manifesto”, no que ele carinhosamente retrucou dizendo que o nome do livro era “Manifesto do Partido Comunista”. Falou de um episódio relatado por sua mãe quando soldados do Exército invadiram a casa em que moravam em Cachoeiras de Macacu em busca de seu pai que havia saído de casa para cair na clandestinidade, num traço de sofrimento psicológico sofrido por sua mãe.
Comentou sobre a presença de um fusca azul próximo à casa de seus pais, segundo relato dos próprios e da irmã mais velha. Disse que cresceram com o sentimento de medo. Salientou ter se tratado de um golpe e não revolução, porque revolução se faz com ideias e golpe se faz com armas. Lamentou a condenação do Brasil pela Corte Internacional de Direitos Humanos, como um dos poucos países a não punir torturadores que atuaram durante o período de vigência do estado de exceção. Citou a lei da anistia, que poupa viúvas de torturadores que ganham polpudas pensões, ao passo que parentes de vítimas da ditadura amargam pensões irrisórias. Citou figuras influentes em Friburgo que cuidavam de investigar as ações de grupos de resistência em Cachoeiras de Macacu, indicando aqueles que deveriam ser presos, mas salienta tratar-se apenas de uma suspeita.
Afirmou, ainda no campo da especulação, que Friburgo era o centro de uma espécie de jurisdição de onde partiam as ações repressoras sobre os demais municípios do entorno. Disse haver dificuldade de identificar nomes, já que as pessoas eram tratadas por codinomes. Informou que o pai se aposentou por volta dos quarenta anos por questões de insalubridade, já que trabalhava na fundição da Ferrovia Leopoldina. Não lembra de uma atuação mais ativa de seu pai na política em Nova Friburgo, para onde a família se mudou, embora tivesse havido ligação com o PDT. Por fim, leu trecho de sua dissertação de mestrado (defendida na UNOPAR) a propósito do regime militar, seu contexto histórico e a participação de seu pai, como contribuição aos trabalhos da Comissão da Verdade, Memória e Justiça Chico Bravo, em documento que foi arquivado pela Comissão.
6) Irapuan Guimarães (14/09/2015)
Em 14 de setembro de 2015, foi a vez de o escritor, poeta e ativista cultural Irapuan Guimarães conceder seu testemunho à Comissão da Verdade Chico Bravo, na Sala de Reuniões situada no 3º andar da Câmara Municipal de Nova Friburgo. Irapuan Teixeira Guimarães é membro da Academia Friburguense de Letras, sendo professor de língua portuguesa e literatura brasileira há mais de 30 anos. Cantagalense, mas friburguense de coração, começou a escrever na adolescência, no antigo Colégio Rui Barbosa. Suas primeiras obras foram editadas ainda nos anos de chumbo quando ele e muitos outros artistas e escritores foram cerceados pela censura da ditadura militar. Seu primeiro livro, "Redemoinho”, por pouco não acabou no limbo. Depois vieram duas obras didáticas de literatura e gramática: "Desabafo - poema mural”; a antologia "Rituais” e ainda, "O Pio da Jiripoca - o lado avesso de Nova Friburgo”, que descortina um pouco do comportamento da sociedade local.
Ele iniciou seu testemunho citando uma frase atribuída a Tancredo Neves: “o Estado ditatorial descaracteriza as pessoas”. Seu trabalho, voltado à militância cultural, começou em 1964 através do Teatro Experimental de Nova Friburgo, no Centro de Artes, quando jovens artistas encenaram peça de Jean Paul Sartre sobre a Resistência Francesa, peça esta que despertou a contrariedade dos apoiadores da ditadura e até poderia ter provocado a prisão da equipe responsável pela produção do espetáculo. Nos anos 1960 e 70, Nova Friburgo era referência nacional em produção cultural. Muitas peças teatrais encenadas aqui, durante a ditadura, serviam de válvula de escape da juventude contra o clima de opressão e censura vigente.
Em protesto ao golpe militar, Irapuan, João Carlos Teixeira e José Carlos Marins (todos atuavam no teatro e nos movimentos culturais de Friburgo) picharam vários pontos do Centro da cidade usando um galão de tinta preta. Com estes mesmos amigos, chegou a participar de reuniões que debatiam obras teóricas de autores socialistas. Entre 1964 e 1966, ele serviu o Tiro de Guerra e depois foi para Niterói-RJ. Em 1968, Irapuan lançou seu primeiro livro e um manifesto. Disse que, na época, tinha sentimentos de impotência, num momento em que alguns de seus amigos sumindo, presos ou mortos pela ditadura, além de tomar conhecimento de relatos de tortura. Acredita que, em 1968, poderia ter acontecido uma revolução popular contra o golpe.
Neste mesmo ano de 1968, participou de uma peça com texto que adaptou de João Ubaldo Ribeiro, “Setembro não tem sentido”. A partir de 1968 sua vida ficou ameaçada, por causa de sua militância cultural. Recebia “avisos” de diversas formas, inclusive nos locais onde trabalhava, como o Instituto de Educação (Niterói), onde recebeu cartas anônimas datilografadas. Teve amigos que morreram, cujas famílias percorreram quartéis e delegacias, sem conseguir encontrá-los. Recebia “avisos” de diversas formas, inclusive nos locais onde trabalhava, como o Instituto de Educação (Niterói), onde recebeu cartas anônimas datilografadas.
Quando era professor do Colégio Cêfel, foi denunciado ao Sanatório Naval. Seu chefe foi convocado para depor sobre seu comportamento, mas negou qualquer participação sua com movimentos políticos. O Secretário de Segurança à época procurou seu tio para informar que Irapuan seria preso. Seu tio convenceu o Secretário de que Irapuan tinha problemas mentais. Por tudo isso, ele mantinha telefones e endereços decorados em sua memória, para a eventualidade de ser preso e necessitar pedir ajuda a alguém. Além disso, deixava sua carteira de identidade separada para, no caso de uma detenção, deixá-la cair e alguém encontrar - forma de sinalizar sua detenção.
Diz não ter comado conhecimento de casos de tortura em Nova Friburgo. Acha que, por ser uma cidade do interior, as famílias se conheciam e, talvez por isso, não houve ataques mais incisivos do Dops, apenas uma forte vigilância exercida pelos agentes ligados à ditadura. Mas houve quem se prestasse ao papel de delatar pessoas envolvidas com a militância anti-ditadura. Dentre possíveis delatores, havia um jornalista local chamado João de Saldanha e Antônio Carlos Vitiello, que foi presidente da Academia Friburguense de Letras em vários mandatos nos anos 1970 e 80 e, posteriormente, nos anos 2000.
7) Bruno Calderaro (02/10/2015)
Em 02 de outubro de 2015, foi colhido, na Câmara Municipal, o testemunho de Bruno Calderaro, neto de italianos, nascido em Nova Friburgo. Bruno é professor aposentado do Estado do Rio de Janeiro e foi vereador, pelo PDT, de 1993 a 2000. O seu avô, há mais de cem anos, foi o primeiro charreteiro da cidade. Bruno começou a trabalhar com quatorze anos como operário da Fábrica de Rendas Arp e, depois, passou a ser contínuo no escritório da empresa. Nessa função, anotava a produção diária de determinadas sessões e acabou tendo contato com operários do PCB e simpáticos a Prestes e ao líder operário friburguense Arquimedes Brito, que trabalhou na Fábrica de Filó.
Bruno Calderaro narrou o quanto a Arp era repressora e autoritária. Esse regime se manifestava na rigidez absoluta em relação ao horário e, até mesmo, em momentos recreativos como nos bailes. Havia um controle despótico do operariado, inclusive, em relação à sexualidade. Bruno exemplificou um fato ocorrido em um baile.
A sua opção pelo socialismo se deu sob influência de Humberto El-Jaick na época em que estudou no Colégio Municipal Rui Barbosa. Humberto adotou muitas iniciativas progressivas à frente do Colégio e incentivava o socialismo. Mas ele tinha adversários, principalmente alunos provenientes da Marinha, que, inclusive, deduraram Humberto. Dentro desse grupo, destacou-se Almir dos Santos Prado, enfermeiro do Sanatório.
O Colégio Rui Barbosa, no turno da noite, tinha entre os operários industriais a quase totalidade de sua composição social. Havia, nessa época, um efervescente movimento estudantil que se ligava ao movimento operário. Bruno foi liderança estudantil secundarista.
Após o golpe de Estado, Humberto El-Jaick foi preso, e o Colégio sofreu intervenção, tendo o apoio de Pedro Bucsky, então estudante e, posteriormente, dono de hotel na cidade. João Raimundo lembrou de um panfleto da década de 1980 em que Humberto El-Jaick denunciava Heródoto Bento de Mello, Hermano e Rosalvo Magalhães (professor) como “dedo duros”.
Na véspera do golpe de 1964, pela madrugada, Bruno Calderaro e Paulo Braga (hoje motorista aposentado) estavam no Paissandu ouvindo rádio, procurando alguma emissora que defendesse Jango. A última Rádio que encontraram foi a Guaíba, que foi destruída pelo golpe. No dia seguinte, na praça, ele, Antônio (Toninho) Cordeiro e Paulo Caixote queriam ocupar a Rádio Friburgo. Francisco de Assis Bravo (dirigente local do PCB e vereador que seria cassado pelo golpe) também estava presente.
Quando se instalou a Ditadura, o Sanatório Naval passou a ser a ponta de lança do regime na cidade. Antes disso, o Sanatório já cumpria um papel de força repressiva. Ela fazia a guarda durante o carnaval. Foi a Marinha que forçou a renúncia do prefeito Vanor e cedeu um tenente como interventor no Colégio Rui Barbosa.
Em 1964, Bruno saiu da fábrica e foi admitido no Banco Hipotecário. Na categoria bancária, teve contato com Sérgio Azevedo, primo de Paulo Azevedo (Prefeito de Nova Friburgo nos mandatos de 1989 a 1992 e de 1997 a 2000), liderança sindical combativa que participou do Congresso do OLAS. Também conheceu Machado e Ruy Danquar, bancários de esquerda.
Nesse período, Bruno ingressou na Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia. Ele recordou alguns momentos marcantes, com a comoção da Irmã Cosmelli quando soube do assassinato do estudante Mário Prata pela repressão e uma ocasião em que a esposa de Graciliano Ramos foi à Faculdade e uma aluna passou a gravar a palestra, com uma blusa sob o gravador. Bruno Calderaro entrou no Sindicato dos Bancários pela influência do Humberto El-Jaick e do pessoal da Faculdade. Sérgio Azevedo o convidou, mas logo depois morreu em um acidente de automóvel. Quem assumiu foi Freire, um burocrata reacionário que fez do Sindicato um aparato para servir aos seus interesses e para o assistencialismo. Freire também morreu em um acidente de automóvel. Desse modo, Bruno, que era secretário, se tornou presidente interino e, depois, presidente eleito.
Bruno foi enfático ao afirmar o caráter corrupto da Ditadura. Relembrou de um fato que o deixou perplexo na época (início dos anos 1970). Um agente do SNI foi ao Sindicato dos Bancários, e o procurou para cobrar uma tarifa ao sindicato. Esse agente disse que o dinheiro era para manter a situação política. Ao telefonar para o presidente da Federação dos Bancários, Bruno foi orientado a entregar o dinheiro, dizendo que a Federação depois o reembolsaria.
Quando a ditadura recrudesceu, Bruno encontrou a sua participação na Maçonaria como um modo de se refugiar. Bruno Calderaro saiu do banco e entrou no magistério, através de um concurso público do Estado. Foi um dos fundadores do CEP, atual SEPE de Nova Friburgo no ano de 1979, participando da primeira reunião. Foi tesoureiro na primeira gestão. Na greve do mesmo ano foi organizado um show no GPH para ajudar as professoras, por conta do corte do ponto. Nessa greve, a direção foi intimada a prestar depoimento e reprimida pela polícia local, inclusive com incursões no local cedido para o Sindicato dos professores da rede pública. Parte dos registros desse momento foram perdidos, porque Lia Faria, então dirigente da entidade, amedrontada, queimou os documentos. Com uma delegação de professores de Nova Friburgo e região, foi ao CONCLAT (Congresso Nacional das Classes Trabalhadoras) em 1981, em Praia Grande, que originou a criação da Central Única dos Trabalhadores (CUT).
Sobre Heródoto Bento de Mello, Bruno afirmou ter conhecimento da sua ligação íntima com o regime ditatorial e com a corrupção do Estado, ligada à especulação imobiliária. Disse ter tomado conhecimento que Heródoto, utilizando a sua influência, adquiriu um imóvel tombado e construiu um novo prédio, no qual funcionou a sede da Arena em Friburgo.
Bruno Calderaro acredita que não havia informantes dentro do Sindicato dos Bancários de Nova Friburgo. Mas, quando perguntado sobre informantes na cidade, Bruno relata que, em uma viagem para Niterói, após comentar sobre a morte de um ditador da Bolívia, um militar da Marinha, já na reserva, passou a segui-lo. Esse sujeito foi aluno do Colégio Rui Barbosa e era do grupo opositor a Humberto El-Jaick. No magistério, ele acredita que Rosalvo Magalhães, Hermano e Benedito cumpriram o papel de “dedo duro”.
8) Entrevista de Heródoto Bento de Mello (1980)
Data da entrevista: dezembro de 1978. Entrevistador: Professor Paulo Di Blasio, usando gravador e fita cassete. Dados Preliminares: Heródoto B. de Mello tornou-se prefeito de Nova Friburgo por ocasião do afastamento do Prefeito eleito Dr. Vanor Tassara Moreira, afastado do governo municipal em 10 de abril de 1964. O governo de Heródoto durou, segundo ele próprio afirmou na entrevista, dois anos, nove meses e dez dias (de 10 de abril de 1964 até janeiro de 1967). Em nível nacional, esse governo coincidiu com o período em que o Brasil fora governado por General Humberto de Alencar Castello Branco. Em nível estadual, corresponde ao governo do militar nomeado Paulo Torres.
É importante lembrar que Heródoto, na ocasião da entrevista, fora prefeito apenas durante esse período inicial da ditadura militar. Posteriormente, o engenheiro governou Friburgo, como prefeito eleito em 1982, de 1983 a fins de 1988. Após um período conturbado na política local, voltou ao Executivo, governando o município de 1994 a 1996, em substituição ao prefeito eleito nas eleições de 1992, Nelci da Silva. Finalmente, nas eleições de 2008, Heródoto foi eleito prefeito, governando o município de 2009 até meados de 2010, quando sofreu acidente que o impossibilitou de se manter no poder, tendo sido substituído por Dermeval Barbosa Moreira Neto (filho de Vanor T. Moreira). A entrevista, portanto, está centrada no período de governo de 1964 a 1967, quando o entrevistado se colocava em princípio como partidário da UDN, mais tarde tendo aderido à ARENA.
Resumo da Entrevista: Instado pelo entrevistador, HBM inicia tecendo considerações sobre o período do início dos anos 1960, dizendo que Jânio Quadros havia sido eleito como uma grande esperança para “retirar a oligarquia do poder”. Afirmava que o Presidente Jânio Quadros era “inteligente, preparado” para governar o país, pois tinha sido “vereador, prefeito e governador de São Paulo”, tendo tido muito bom desempenho. No entanto, ele teria se perdido diante de uma forte oposição do Congresso e elaborando estratégias na tentativa de se tornar uma grande liderança na América, para isso “condecorando Che Guevara”. O episódio da renúncia do Presidente teria sido uma tentativa mal calculada de fechar o Congresso e poder assim governar sem oposição. O substituto Jango era “totalmente despreparado, permitindo a desordem, a corrupção e a subversão”.
A ascensão de Castello Branco foi considerada, na sua visão, “um grande avanço”, já que se tratava de um homem “culto, preparado, democrata e estadista”. A oposição não entendeu o papel do primeiro presidente da “Revolução”. O problema ficou evidente com a edição do Ato Institucional no. 2, que, além da reformulação partidária, criava o adiamento de eleições presidenciais, possibilitando assim que o país vivesse 20 anos sem eleição para Presidente da República.
Em seguida, o entrevistador solicita que o entrevistado falasse sobre a “Revolução” de 1964 em Nova Friburgo. De início, HBM disse que o governo do Prefeito eleito Vanor T. Moreira era “caótico”, já que ele havia se perdido “pelo excesso de bebida”, e que a “insatisfação era muito grande”, a ponto de ele, HBM, em fins de 1963, ter procurado o Prefeito fazendo a seguinte sugestão: “Você se licencia por 3 meses, eu assumo, coloco a Prefeitura em ordem e depois você retorna”. O Prefeito não aceitou a proposta, o que, para ele, HBM, foi uma boa, pois caso isso se efetivasse, a “Revolução” o apearia do poder. Diante da insistência do entrevistador sobre a possível existência de um movimento para afastar o Prefeito, HBM respondeu que, em princípios de 1964, foi procurado na praia, por um vereador de Nova Friburgo, solicitando o seu apoio para o impeachment do Prefeito, participação que ele negou, afirmando ser contra o impeachment. Mais à frente, afirmou a existência de um grupo, segundo ele, “de 20 a 30 pessoas”, que mobilizava forças para o afastamento do Prefeito.
Perguntado sobre a presença do Sanatório Naval neste processo, ele não confirma, dizendo que, naquele momento, entre fevereiro e março de 1964, o Sanatório Naval estava fragilizado porque o Comandante, preocupado com o movimento de cabos, sargentos e soldados, havia lotado um ônibus e enviado todos os militares de baixa patente de volta ao Rio de Janeiro. Sendo assim, o Sanatório Naval, naquele momento, ficara com poucos oficiais de alta patente. Confirmava, ainda, que a força policial de Nova Friburgo era exígua, possuindo apenas dois policiais e que o Sanatório Naval funcionava também como força policial.
O entrevistador, a seguir, pergunta sobre o dia da “Revolução”, se na cidade houve “desordens”. Ele disse que não e que apenas o Prefeito “pegou a metralhadora de um policial na tentativa de invadir a Fábrica de Rendas, porém, sem maiores consequências e que alguns civis tentaram se armar para defender os ideais da Revolução”. Perguntado sobre sua ida em direção à Região de Além Paraíba, no dia da “Revolução”, ele respondeu que sim. “Pegamos um jipe, eu e Rafael (Jaccoud), e partimos em direção a Além Paraíba, pois sabíamos das tropas que vinham de Minas Gerais e, por sugestão do Comandante do Sanatório, levávamos um comunicado para que as tropas passassem por Nova Friburgo, pois aqui era a liberdade total”. Ao chegar nas proximidades de Sumidouro, ligaram um rádio e ouviram a fala de um padre que noticiava a vitória das forças da “Revolução”. Sendo assim, “aliviados”, voltaram para Nova Friburgo.
Sobre o afastamento de Vanor e de sua posse no cargo, pois era o vice-prefeito, ele afirmou que tudo ocorrera em 10 de abril de 1964. Perguntado ainda se em Nova Friburgo houve prisões e repressão, ele disse, a princípio, que não, confirmando que nenhum friburguense foi preso, “apenas algumas pessoas de fora”. Sobre esta questão de prisões e ações repressivas, HBM disse que, ao longo de seu governo, não houve prisões, mas que “nesses momentos era necessário usar de inteligência” (gargalhada forte de HBM). A seguir, relata que o seu partido possuía apenas 3 vereadores na Câmara e que, numa votação importante, ele precisava do voto de um quarto vereador que “tinha rabo preso”. O que fez o Heródoto? Ligou para o Comandante do Batalhão de Caçadores de Petrópolis solicitando o envio de um jeep com um oficial e 2 soldados. Ao chegar em Nova Friburgo, o Comandante de Petrópolis procurou o Prefeito perguntando quem ele deveria prender. HBM respondeu: “Ninguém. Você vai com seu jeep, estaciona na frente daquela galeria, descem os 3, sentam numa mesa próxima à porta e solicitam café. Ao fim do cafezinho, pergunte ao dono do bar com voz bem alta o endereço do fulano, o vereador. É somente isso que você tem que fazer”. Após uma estrondosa gargalhada, HBM diz que, no dia seguinte, o Vereador mudou o seu voto, usando assim o que ele chamou de “inteligência”. Em seguida, afirmou ainda que esse vereador pensava em se candidatar novamente e que ele, HBM, o instou a não se candidatar mais. E assim aconteceu.
A seguir, ele fala de sua obra como prefeito, realizações, etc. Fala ainda das últimas eleições em que ele (Deputado Estadual) e Amâncio Azevedo (Deputado Federal) foram eleitos e fez conjecturas sobre uma futura reformulação partidária (a qual, de fato, aconteceria no ano de 1982).
CAPÍTULO V - CONCLUSÕES
Devolução do mandato de Chico Bravo e outras providências
Por meio da Resolução Legislativa nº 2.160, de autoria do Vereador Professor Pierre e aprovada por unanimidade em 26 de agosto de 2015, a Câmara Municipal de Nova Friburgo declarou nulas as resoluções de 1964 e devolveu simbolicamente o mandato de Francisco de Assis Bravo. Sessão solene realizada em 25 de setembro homenageou o vereador comunista e líder operário cassado pela ditadura em 1964. Após solicitações feitas pela Comissão da Verdade, a Câmara Municipal de Nova Friburgo reparou o crime histórico cometido contra um dos mais bravos lutadores do movimento operário e sindical da cidade. O evento contou com as presenças e importantes falas de Ricardo Costa (Comissão da Verdade de Nova Friburgo), Eduardo Serra (PCB), vereadores Pierre e Cláudio Damião, Hugo Moreno (PSTU), Aderson Bussinger Carvalho (Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ, Sidney de Moura (Unidade Classista), Nathália Mozer (UJC), Sérgio El-Jaick e Gessy Bravo, filha do homenageado. O ato contou ainda com a participação de Carlos Guimarães (ex-vereador e ex-deputado estadual do PDT), Bruno Calderaro (ex-vereador do PDT), Maria Ignez Breder, Ivaldeck Barreto, Anderson Ramos (Sindicato dos Metalúrgicos), Fatima Cristina (Sepe), professores Pedro Monnerat, Margot Santos Costa, Manoel Espedito Silva, Annibal Botto e familiares de Chico Bravo. Foi exibido vídeo com saudação do Deputado Federal Wahdi Damous (PT) à conquista.
Outras reparações são igualmente necessárias. A Comissão propõe que a Câmara Municipal de Nova Friburgo dê continuidade ao processo de reparação histórica no município e de superação da herança institucional deixada pela ditadura, mediante alguns procedimentos considerados igualmente necessários:
1) Devolução simbólica do mandato do Prefeito Vanor Tassara Moreira, que foi forçado a renunciar em função de perseguições promovidas pelos agentes repressores locais, tendo à frente o Sanatório Naval, com apoio de empresários e políticos que se beneficiaram da deposição do então primeiro mandatário do Executivo Municipal, eleito democraticamente pela população friburguense;
2) Alteração de nomes de vias e espaços públicos que até hoje homenageiam ditadores, a exemplo do “Pavilhão Ernesto Garrastazu Médici”, que abriga a feira da Vila Amélia, da “Avenida Presidente Costa e Silva” e da “Praça Presidente Castelo Branco”, em Duas Pedras. A manutenção de tais nomes em vias e espaços públicos de nossa cidade não mais condiz com os tempos atuais, que exigem o aprofundamento das liberdades democráticas e o resgate da verdade histórica, tão necessários ao pleno funcionamento das instituições e à prática da liberdade e da cidadania.
A Comissão apresenta, como alternativas para a substituição dos nomes citados, importantes figuras ligadas à história política e cultural de Nova Friburgo, que se destacaram, em suas atividades específicas, na resistência ao regime de exceção, na defesa da democracia e na promoção do bem comum: Dom Clemente Isnard, Prof. João Carlos Teixeira, Prof. Humberto El-Jaick, José El-Jaick, Maestro Joaquim Naegle, Profª Maria Julia Carvalho da Silva, Maria José Braga, Francisco de Assis Bravo, José Pereira da Costa Filho, Arquimedes de Brito, dentre outros. De igual modo, há sugestões de nomes de grandes figuras nacionais, como Paulo Freire, Darcy Ribeiro, dentre muitos outros, que merecem ser homenageados.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARNS, Paulo Evaristo; SOBEL, Henry; WRIGHT, Jaime (org.). Brasil Nunca Mais. São Paulo: Editora Vozes, 1985.
COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE. Relatório / Comissão Nacional da Verdade. – Brasília: CNV, 2014.
COSTA, Ricardo da Gama Rosa. Visões do Paraíso Capitalista: hegemonia e poder simbólico na Nova Friburgo da República. Niterói, Dissertação de Mestrado, 1995.
GASPARI, Elio. (2014). A Ditadura Escancarada. 2ª ed. (Rio de Janeiro: Editora Intrínseca).
Lei Municipal 4.313, de 1º de abril de 2014.
PRADO JUNIOR, Caio. História e Desenvolvimento: A contribuição da historiografia para a teoria e prática do desenvolvimento brasileiro. São Paulo: Editora Brasiliense, 1989.
REVISTA ANISTIA POLÍTICA E JUSTIÇA DE TRANSIÇÃO. – nº 10 (julho/ dezembro de 2013). Brasília, Ministério da Justiça, 2014.
SIKKINK, Kathryn. The justice cascade: how human rights prosecutions are changing world politics. Nova York, Londres: W.W. Norton & Company, 2011.
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